Pena Vadia

The unscripted wanderings of a trampish pen.

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  • Ricardo Piglia

    Literatura e respiração: Ricardo Piglia (1940-2017)

    Lemos como quem quer respirar. Continuar a leitura é às vezes uma necessidade estranha e imperiosa, como quando se arranca na corrida sem que haja mais fôlego. O escritor é um leitor in extremis, alguém para quem a parada não faz parte do jogo. Quando os estoicos escreviam sobre a morte virtuosa, o fato é que escreviam, não morriam. Falavam da ausência, preenchendo-a com as letras.

  • Chega de homem cordial (a palavra é outra: fronteira)

    Mauricio Puls publicou, no último número de Cultura!Brasileiros, reportagem sobre “Semeadores ou ladrilhadores”, em que eu e Bernardo Buarque de Holanda somos entrevistados. A matéria vem a calhar, inclusive porque desvia o foco do “homem cordial” – verdadeira obsessão dos leitores de Raízes do Brasil, que este ano ganhou uma edição crítica.

  • Debate sobre o homem cordial ainda está vivo

    No Jornal da PUC-Campinas – nº 168 agosto/setembro de 2016:

    “Debate sobre o homem cordial ainda está vivo”
     
    Para o pesquisador Pedro Meira Monteiro, Sérgio Buarque de Holanda estava errado quando, na década de 1950, declarou a morte do homem cordial.

  • Cenas de leitura

    Convivi com Piglia em Princeton, ao longo de quase uma década, até que ele regressasse a Buenos Aires. Era formidável tê-lo como colega, o único capaz de tornar uma reunião de departamento não apenas suportável, mas interessante. Ainda posso vê-lo falando, apertando o dedo médio e o indicador enquanto os olhos cerravam ligeiramente atrás dos óculos sempre pendentes. O jogo de perspectivas que ele trazia nos desconcertava e mudava o rumo da discussão. Com o tempo aprendi que se tratava sempre de uma nova maneira de ler o mundo.

  • Zuca épica

    Entre Hamburgo e o Rio de Janeiro talvez haja algo em comum. Não há de ser o clima, decerto, nem mesmo a luz batendo na cuca como se viesse direto do sol, sem intermediários. As duas são cidades portuárias, lá isso é verdade, abertas às surpresas que vêm do mar. No entanto, há uma ponte entre elas: o escritor carioca “Zuca Sardan”, poeta, desenhista, diplomata aposentado, radicado na Alemanha.

  • The How-I-Spent-My-Summer Thing: Trading Times

    My summer was a winter. It always happens to me. My wife and I spend most of our summers in Brazil. As everybody knows, the world is upside down there, and if you trade you time here for a vacation in South America you end up missing your summer. Well, not so much. In Campinas, where we have a little apartment, winter can be quite nice: days in the upper 70s, evenings in the mid 60s. If it’s below 60 F, people think they are freezing.

  • A classe das almas

    Às segundas-feiras os lixeiros passam em frente de casa recolhendo o lixo. Sempre que trabalho no meu escritório, como hoje, observo da janela a maneira displicente com que eles pegam as latas, vertem o conteúdo no caminhão e as jogam de volta, em geral sobre as plantas do jardim. A alma de classe média que mora em mim não resiste e exclama, lá de dentro: que falta de cuidado, será que eles fazem de propósito, porque é o jardim dos bacanas?

  • As ruínas de Palmira

    Agora que o “Estado Islâmico” dinamitou o templo Baalshamin, na Síria, é tempo porventura de voltar às reflexões do conde de Volney sobre as ruínas. Revolucionário, viajante, professor, agricultor frustrado, Volney foi uma daquelas almas inquietas que a França revolucionária acolheu e projetou. O primeiro anúncio de seu livro Ruines, ou Méditations sur les révolutions des empires apareceu em 1791.

  • Baile com a morte

    Salomé, de Richard Strauss, causou espécie quando estreou, em 1905, em Dresden. Conta-se que, no ano seguinte, Schoenberg levou seus alunos para assistir à estreia da ópera em solo austríaco. Na plateia, encontravam-se o novo e o consagrado, de Mahler a Puccini. Pouco depois, um estudante veria, aberta ao piano, na casa de Schoenberg, a partitura de Salomé. “Talvez daqui a vinte anos”, teria dito o futuro compositor do Pierrot Lunaire, “alguém será capaz de explicar teoricamente estas progressões harmônicas”.

  • Enigmas da primavera

    Acaba de ser lançado o último romance de João Almino, Enigmas da primavera, para o qual escrevi a seguinte orelha: “Reflexão cândida e profunda sobre a falta de alternativas, este livro é também sobre a razão que, aliada à imaginação, faz brotar saídas.