Entre duas cenas: Ricardo Piglia

Este pequeno depoimento foi publicado na revista “parêntese“, de Porto Alegre, no dossiê “Operação Piglia“. A fotografia da casa em que Piglia vivia, em Princeton, é minha.

Ricardo Piglia inicia o “Prólogo” de sua Antología Personal, publicada em 2014, com o relato de sua ida ao cinema, para ver um filme estrelado por Arnold Schwarzenegger, baseado numa estória de Philip Dick sobre inteligência artificial e as recordações alheias. Piglia se sente atraído pela noção de utopia que vaza do filme, e que reside em construir artificialmente a experiência para então viver, como próprias, vivências que nunca foram vividas.

Há algo de aprisionador na ficção, como se fôssemos presas daquilo que lemos ou ouvimos. A crítica, no fim das contas, tem o dever de desvendar essa prisão. Mas o mistério jamais se rende à entrada em cena do crítico, que é também um detetive. Uma boa estória não elimina o segredo, antes o mantém num plano subterrâneo. Um bom conto contém duas estórias, uma superficial, outra escondida. Já as utopias são pequenas estórias privadas em que o sujeito sói viver, no limite permitido pelas regras da ficção. O sentido está na manutenção precária, mas luminosa, de espaços novos abertos pela linguagem. O conjunto dos textos de um autor esconde algum delito, “ou um leve desvio pessoal da lei que rege as linguagens sociais.”

Todas essas são ideias que emanam da ficção e da crítica do autor argentino, de quem guardo recordações cujo valor é uma questão em aberto para mim. O que se ouve e se vê tem valor para alguém, além do sujeito que recorda? Há na estória que lembro alguma revelação sobre o autor, ou trata-se daquilo que tão-só a mim interessa, e que termino por projetar no outro?

Creio que aí resida um ponto sensível na teoria de Piglia sobre a ficção, porque nela o segredo ao mesmo tempo é e não é matéria privada. Ele só tem sentido porque se furta à nossa vista, mas a sua matéria só existe porque foi compartilhada de alguma maneira. Em suma, o segredo se faz quando emprestamos os ouvidos às estórias dos outros. Não há mistério antes que se abra um livro, ou antes que se escute ou veja alguém. O mistério é uma espécie de abertura para o outro, com a recusa soberana de qualquer forma de transparência.

Recordo uma cena rápida. Estávamos sentados, conversando animadamente à volta de uma mesa, quando uma pessoa fez o elogio da maconha, defendendo-a como “uma droga coletiva”. Ricardo sorriu e assentiu, satisfeito, cerrando os olhos.

É verdade, mas não é menos verdade que o isolamento e a solidão são funções primordiais da escrita. Conviver com o segredo de outrem exige distância e alguma veneração. No entanto, paradoxalmente, apenas na solidão podemos nos aproximar da estória alheia. O “rio do relato” — uma das mais fortes metáforas piglianas — é uma fonte viva que os escritores tentam resgatar, ao recriarem o ambiente que teria prendido a atenção daqueles que foram expostos à estória, que se contou num outro tempo que não é o do narrador. O escritor está atrás do momento em que, um dia, alguém ouviu fascinado um relato.

A escrita é uma forma de aproximação pela escuta, embora não no seu sentido auditivo, propriamente. Trata-se de entender um encantamento que já foi vivido, em outro tempo. Uma estória é boa quando prende, ou seja, quando nos flagramos na prisão perpétua da ficção, como aquela máquina em que Macedonio tentou encarcerar sua amada Elena, que era uma espécie de Beatriz mesclada a Sherezade: fonte perdida do relato, como mantê-la viva?

Em Piglia, a distância entre escritor e leitor se reduz drasticamente A própria leitura remete sempre a uma cena, uma sorte de escuta primeira do texto, que se exprime em gestos determinados. Uma pessoa lendo no trem, ou trepada numa árvore, ou a leitura infantil na soleira da porta: todas cenas de leitura. Quem as veja, pode suspeitar que um mundo novo se forma ali, naquele momento único e insubstituível. Onde lemos os nossos livros, e como formamos o cânone idiossincrático de nossas leituras? Que segredos estão tramados num roteiro de leitura? Uma antologia pessoal, assim como o cânone que inventamos para nós mesmos, não é bem a eternização de um segredo que queremos passar adiante, sem jamais revelá-lo completamente?

Lembro de uma segunda cena breve, sem a qual aquela outra perde o sentido. Uma noite, quando o visitava em sua casa na Markham Rd., em Princeton, Ricardo me mostrou um senhor que lia, na casa ao lado. Ele se virou para mim e disse, completamente fascinado: el tipo lee todo el tiempo. ¿No es extraordinario?

De fato, sob a luz mortiça de uma luminária (poderia ser um candelabro num conto de Poe), o vizinho se debruçava sobre um livro aberto, no segundo andar de sua casa. Sentado numa poltrona de couro em sua própria casa, Ricardo podia vê-lo do outro lado, lendo através da noite. O homem parecia congelado no tempo, em outro tempo.

Não me dei conta imediatamente do sentido da cena. Depois, fui encontrá-la, aqui e ali, transmutada em diferentes cenas de leitura que aparecem na obra de Piglia, pautada, desde logo, pela busca da “voz interminável que mantinha viva a recordação”, como se lê ao final do conto “El gaucho invisible”, que é um comentário sibilino da violência que funda a conquista dos grandes espaços.

A utopia é um logro ficcional, dividido entre o desejo de recuperar a experiência coletiva e o aprisionamento pela literatura: de um lado compartilhamento, de outro, solidão. Entre a potência discreta de uma droga coletiva e o entorpecimento da leitura nasce uma terra nova e distante, que serve de espelho à nossa. O quanto esse espelho pode nos moldar, sempre que regressamos da viagem por um livro, é uma questão pendente. Em inúmeras passagens, Piglia reafirma a crença de que a escrita cria o mundo, e não o inverso. As duas cenas que relatei, tiradas à minha convivência com Ricardo, dizem o mesmo, de forma cifrada: a estória aproxima e leva longe.

Suspeito que a literatura, para Ricardo Piglia, seja o trânsito entre esses dois momentos.

Princeton, NJ, 22 de julho de 2020.

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