Clémence

Clémence Jouët-Pastré nos deixou no dia 12 de novembro do ano passado. Escrevi este obituário para a Portuguese Newsletter da AATSP, editada por Luci Moreira.

Pensar em Clémence Jouët-Pastré me faz sentir como se eu pudesse escrever em nome de uma pequena multidão. Clémence era a força da profissão, a dignidade e a inteligência de quem resiste nas trincheiras do “Portuguese”, nos departamentos e programas deste país. Somos muitas e muitos, mas sempre um pouco isolados, entre a sala de aula e as office hours, navegando os mares bravios da burocracia acadêmica, buscando um lugar ao sol para a língua portuguesa e para nós mesmos. Saber que Clémence estava entre nós já era um alívio e uma força, mesmo à distância. Um exemplo cristalino de que o “jeitinho” pode ser algo bom, no fim das contas.

De fato, Clémence “se virava” magnificamente e nos inspirava a que “nos virássemos” também: era o jeitinho, o talento e o esforço operando juntos, rodando numa máquina bem azeitada e alegre. Clémence foi e é um modelo para muitos dos que ensinamos português. Seja como autora, scholar ou colega, nos livros e nos congressos, ela sempre estava presente e na frente. Era ela quem trazia as novidades, quem inventava a nova moda no português… Uma palavrinha sua era como um bálsamo: quando ela nos escutava e dava ideias, sabíamos imediatamente se íamos ou não pelo caminho correto. Simples assim: alguém que ouve profundamente, sem solenidade, só com leveza e interesse; alguém que sabia que só seríamos fortes se nos sentíssemos próximos, mesmo distantes.

Eu a conheci e comecei a admirá-la como seu estudante, ainda na Unicamp, no final da década de 1980. Clémence era uma brilhante e querida professora de francês do Centro de Estudos de Língua daquela universidade. Depois, foi uma alegria reencontrá-la em Princeton, onde ela trabalhava como Lecturer de português, quando fiz minha “campus visit” em 2002. Logo depois eu chegaria para instalar-me, quando ela já tinha ido para Cambridge assumir a direção do programa de língua portuguesa de Harvard. O que construímos em Princeton é impensável sem a presença de Clémence. Verdadeira catalisadora de energias e simpatia, era como se uma corrente unisse quem veio antes e quem viria depois. Sentíamo-nos um só.

A doença que a acometeu e a levou à morte no ano passado rompe esse sentimento, como se de repente nos descobríssemos sozinhos. No entanto, a presença de Clémence é mais que uma inspiração, e uma homenagem a ela não pode se resumir a um evento ou uma publicação. Suponho que a maior homenagem seja simplesmente continuar encontrando força nesse lugar “menor” que ocupamos com “o português”. As alianças e (quando necessário) os enfrentamentos corajosos são a alma do (nosso) negócio.

Clémence sabia que o balanço entre aliança e conflito é uma solução difícil e diária, que dá o tom e o gosto da nossa vida profissional. Os que tivemos a alegria e a honra de conhecê-la sabemos que essa combinação entre enfrentar e abraçar, dizer e ouvir, não pode ser o resultado de um cálculo frio. Trata-se de um sentimento, uma intuição profunda — como aquela que movia Clémence — sobre a importância incontornável do que fazemos. Ou, para falar com o poeta, trata-se da afirmação, leve e poderosa, do que pode e do que quer esta língua.

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