Arte movediça

Os desenhos-pintura de Rogério Barbosa lembram que a arte aponta para dentro dela mesma. Entretanto, não se trata da velha máxima da arte pela arte. É mais estranho e sobretudo mais complicado que isso.
Trata-se da defesa da autonomia da ilustração, o que, convenhamos, é uma contradição em termos: se se trata de “ilustração”, é porque o desenho ilustra algo, apontando para o que está fora dele mesmo.
Mas e se a ilustração vai se tornando significativa em si mesma: nos riscos, na matéria, no peso, nos silêncios dos seus espaços? O que fazer da ilustração quando ela parece conversar não mais com o entorno, mas consigo própria? É possível que uma ilustração ressoe dentro dela mesma, como se de repente aprisionasse todos os ecos que julgávamos virem de fora? Em que momento, precisamente, a ilustração nos capturou, chamando-nos para o que se agita lá dentro, e não mais para o que descansa fora dela?
Rogério diz que a ilustração – falávamos de uma ilustração que ensaia sua própria autonomia – pode sugerir algo “mais aguçado”, sempre que sua relação com o que está fora seja suficientemente complexa, isto é, sempre que seu caráter ilustrativo não seja evidente. Se bem entendo a questão, é como se a pintura e o desenho guardassem um segredo estranho ao “entorno”, separando-se delicadamente dele.
Um segredo do desenho em si: uma ilustração que por um instante se esqueceu de ilustrar, digamos.
Aguçar, no caso, teria a ver com a manutenção delicada de um sentido próprio, quando a arte se define em seu território específico. No entanto, ela segue falando do mundo, mas de um jeito seu, como se sussurrasse coisas estranhas, contando estórias que só quem abandonou as “referências” claras pode compreender.
Suspeito que a “fronteira movediça” que dá nome à série de Rogério Barbosa recentemente exibida no Instituto Moreira Salles seja sobretudo isso: travessia da voz e do traço, quando a arte fala e desenha dentro de si mesma, mostrando tudo o que se agita nela, para que possamos finalmente entender o que ficou para trás.
Para trás ficou o mundo, agora outro, habitado pela arte que levamos nos olhos.