Pedro Meira Monteiro

Pena Vadia

Cenas de leitura

Convivi com Piglia em Princeton, ao longo de quase uma década, até que ele regressasse a Buenos Aires. Era formidável tê-lo como colega, o único capaz de tornar uma reunião de departamento não apenas suportável, mas interessante. Ainda posso vê-lo falando, apertando o dedo médio e o indicador enquanto os olhos cerravam ligeiramente atrás dos óculos sempre pendentes. O jogo de perspectivas que ele trazia nos desconcertava e mudava o rumo da discussão. Com o tempo aprendi que se tratava sempre de uma nova maneira de ler o mundo.

Zuca épica

Entre Hamburgo e o Rio de Janeiro talvez haja algo em comum. Não há de ser o clima, decerto, nem mesmo a luz batendo na cuca como se viesse direto do sol, sem intermediários. As duas são cidades portuárias, lá isso é verdade, abertas às surpresas que vêm do mar. No entanto, há uma ponte entre elas: o escritor carioca “Zuca Sardan”, poeta, desenhista, diplomata aposentado, radicado na Alemanha.

The How-I-Spent-My-Summer Thing: Trading Times

My summer was a winter. It always happens to me. My wife and I spend most of our summers in Brazil. As everybody knows, the world is upside down there, and if you trade you time here for a vacation in South America you end up missing your summer. Well, not so much. In Campinas, where we have a little apartment, winter can be quite nice: days in the upper 70s, evenings in the mid 60s. If it’s below 60 F, people think they are freezing.

A classe das almas

Às segundas-feiras os lixeiros passam em frente de casa recolhendo o lixo. Sempre que trabalho no meu escritório, como hoje, observo da janela a maneira displicente com que eles pegam as latas, vertem o conteúdo no caminhão e as jogam de volta, em geral sobre as plantas do jardim. A alma de classe média que mora em mim não resiste e exclama, lá de dentro: que falta de cuidado, será que eles fazem de propósito, porque é o jardim dos bacanas?

As ruínas de Palmira

Agora que o “Estado Islâmico” dinamitou o templo Baalshamin, na Síria, é tempo porventura de voltar às reflexões do conde de Volney sobre as ruínas. Revolucionário, viajante, professor, agricultor frustrado, Volney foi uma daquelas almas inquietas que a França revolucionária acolheu e projetou. O primeiro anúncio de seu livro Ruines, ou Méditations sur les révolutions des empires apareceu em 1791.

Baile com a morte

Salomé, de Richard Strauss, causou espécie quando estreou, em 1905, em Dresden. Conta-se que, no ano seguinte, Schoenberg levou seus alunos para assistir à estreia da ópera em solo austríaco. Na plateia, encontravam-se o novo e o consagrado, de Mahler a Puccini. Pouco depois, um estudante veria, aberta ao piano, na casa de Schoenberg, a partitura de Salomé. “Talvez daqui a vinte anos”, teria dito o futuro compositor do Pierrot Lunaire, “alguém será capaz de explicar teoricamente estas progressões harmônicas”.

Enigmas da primavera

Acaba de ser lançado o último romance de João Almino, Enigmas da primavera, para o qual escrevi a seguinte orelha: “Reflexão cândida e profunda sobre a falta de alternativas, este livro é também sobre a razão que, aliada à imaginação, faz brotar saídas.

Duas meninas (abandonadas)

Adriana Lisboa conversava esta semana em Princeton com os alunos de um curso intermediário de português que haviam lido seu Azul Corvo. Uma das questões tocou um ponto sensível: na busca de um pai real nos Estados Unidos, Vanja, a personagem-narradora do romance, teria abandonado um espaço eminentemente feminino, no Brasil. Os homens são sempre fracos ou distantes, nos livros de Adriana?

O além do laço: de Nietzsche a Lady Day, passando por poetas e buracos

Num dos fragmentos da Gaia Ciência, Nietzsche se declara, uma vez ao menos, amigo dos utilitaristas. A poesia tem utilidade, “uma grande utilidade”: ao deixar o ritmo permear o discurso, torna mais próximos os deuses. A mecânica dessa aproximação é simples. A oração ritmada, como um tiquetaque, chega mais longe e pode atingir os ouvidos divinos. A Nietzsche interessa devolver a potência ao sujeito, mostrando-lhe que ela existe na distância que o separa dos deuses. O ritmo é uma coação, porque ele enlaça e o corpo dança, queiramos ou não. Não há como resistir.

Pedro Meira Monteiro