Pedro Meira Monteiro

Pena Vadia

A literatura contra a morte: Antonio Candido (1918-2017)

A última vez que vi Antonio Candido foi em sua casa, no ano passado, quando eu e Lilia Schwarcz lhe demos um exemplar da edição crítica de Raízes do Brasil, que ele recebeu com grande entusiasmo. Nós, um pouco embaraçados, porque a edição no fundo vai contra a famosa interpretação que ele fez do amigo Sérgio Buarque, considerando-o um democrata “radical” já lá na década de 1930.

Literature and respiration: Ricardo Piglia (1940-2017)

We read as if gasping for breath. To keep on reading is at times a strange, imperious need, something like a burst of energy late in a run, when there seems to be no air left in one’s lungs. The writer is a reader in extremis, someone for whom stopping is not part of the game. When the Stoics wrote about virtuous death, the fact is that they did write about it, not die about it. They spoke of absence by filling it with letters.

Literatura e respiração: Ricardo Piglia (1940-2017)

Lemos como quem quer respirar. Continuar a leitura é às vezes uma necessidade estranha e imperiosa, como quando se arranca na corrida sem que haja mais fôlego. O escritor é um leitor in extremis, alguém para quem a parada não faz parte do jogo. Quando os estoicos escreviam sobre a morte virtuosa, o fato é que escreviam, não morriam. Falavam da ausência, preenchendo-a com as letras.

Chega de homem cordial (a palavra é outra: fronteira)

Mauricio Puls publicou, no último número de Cultura!Brasileiros, reportagem sobre “Semeadores ou ladrilhadores”, em que eu e Bernardo Buarque de Holanda somos entrevistados. A matéria vem a calhar, inclusive porque desvia o foco do “homem cordial” – verdadeira obsessão dos leitores de Raízes do Brasil, que este ano ganhou uma edição crítica.

Cenas de leitura

Convivi com Piglia em Princeton, ao longo de quase uma década, até que ele regressasse a Buenos Aires. Era formidável tê-lo como colega, o único capaz de tornar uma reunião de departamento não apenas suportável, mas interessante. Ainda posso vê-lo falando, apertando o dedo médio e o indicador enquanto os olhos cerravam ligeiramente atrás dos óculos sempre pendentes. O jogo de perspectivas que ele trazia nos desconcertava e mudava o rumo da discussão. Com o tempo aprendi que se tratava sempre de uma nova maneira de ler o mundo.