Pedro Meira Monteiro

Pena Vadia

Literature and respiration: Ricardo Piglia (1940-2017)

 

We read as if gasping for breath. To keep on reading is at times a strange, imperious need, something like a burst of energy late in a run, when there seems to be no air left in one’s lungs.

The writer is a reader in extremis, someone for whom stopping is not part of the game. When the Stoics wrote about virtuous death, the fact is that they did write about it, not die about it. They spoke of absence by filling it with letters.

Literatura e respiração: Ricardo Piglia (1940-2017)

Saiu no blog da peixe-elétrico, uma homenagem a Piglia após sua morte na última sexta-feira:

Lemos como quem quer respirar. Continuar a leitura é às vezes uma necessidade estranha e imperiosa, como quando se arranca na corrida sem que haja mais fôlego.

O escritor é um leitor in extremis, alguém para quem a parada não faz parte do jogo. Quando os estoicos escreviam sobre a morte virtuosa, o fato é que escreviam, não morriam. Falavam da ausência, preenchendo-a com as letras.

Chega de homem cordial (a palavra é outra: fronteira)

 

Mauricio Puls publicou, no último número de Cultura!Brasileiros, reportagem sobre “Semeadores ou ladrilhadores”, em que eu e Bernardo Buarque de Holanda somos entrevistados. A matéria vem a calhar, inclusive porque desvia o foco do “homem cordial” – verdadeira obsessão dos leitores de Raízes do Brasil, que este ano ganhou uma edição crítica.

Cenas de leitura

Convivi com Piglia em Princeton, ao longo de quase uma década, até que ele regressasse a Buenos Aires. Era formidável tê-lo como colega, o único capaz de tornar uma reunião de departamento não apenas suportável, mas interessante. Ainda posso vê-lo falando, apertando o dedo médio e o indicador enquanto os olhos cerravam ligeiramente atrás dos óculos sempre pendentes. O jogo de perspectivas que ele trazia nos desconcertava e mudava o rumo da discussão. Com o tempo aprendi que se tratava sempre de uma nova maneira de ler o mundo.

Zuca épica

Entre Hamburgo e o Rio de Janeiro talvez haja algo em comum. Não há de ser o clima, decerto, nem mesmo a luz batendo na cuca como se viesse direto do sol, sem intermediários. As duas são cidades portuárias, lá isso é verdade, abertas às surpresas que vêm do mar. No entanto, há uma ponte entre elas: o escritor carioca “Zuca Sardan”, poeta, desenhista, diplomata aposentado, radicado na Alemanha.

The How-I-Spent-My-Summer Thing: Trading Times

My summer was a winter. It always happens to me. My wife and I spend most of our summers in Brazil. As everybody knows, the world is upside down there, and if you trade you time here for a vacation in South America you end up missing your summer. Well, not so much. In Campinas, where we have a little apartment, winter can be quite nice: days in the upper 70s, evenings in the mid 60s. If it’s below 60 F, people think they are freezing.

A classe das almas

Às segundas-feiras os lixeiros passam em frente de casa recolhendo o lixo. Sempre que trabalho no meu escritório, como hoje, observo da janela a maneira displicente com que eles pegam as latas, vertem o conteúdo no caminhão e as jogam de volta, em geral sobre as plantas do jardim. A alma de classe média que mora em mim não resiste e exclama, lá de dentro: que falta de cuidado, será que eles fazem de propósito, porque é o jardim dos bacanas?

As ruínas de Palmira

Agora que o “Estado Islâmico” dinamitou o templo Baalshamin, na Síria, é tempo porventura de voltar às reflexões do conde de Volney sobre as ruínas. Revolucionário, viajante, professor, agricultor frustrado, Volney foi uma daquelas almas inquietas que a França revolucionária acolheu e projetou. O primeiro anúncio de seu livro Ruines, ou Méditations sur les révolutions des empires apareceu em 1791.

Baile com a morte

Salomé, de Richard Strauss, causou espécie quando estreou, em 1905, em Dresden. Conta-se que, no ano seguinte, Schoenberg levou seus alunos para assistir à estreia da ópera em solo austríaco. Na plateia, encontravam-se o novo e o consagrado, de Mahler a Puccini. Pouco depois, um estudante veria, aberta ao piano, na casa de Schoenberg, a partitura de Salomé. “Talvez daqui a vinte anos”, teria dito o futuro compositor do Pierrot Lunaire, “alguém será capaz de explicar teoricamente estas progressões harmônicas”.

Enigmas da primavera

Acaba de ser lançado o último romance de João Almino, Enigmas da primavera, para o qual escrevi a seguinte orelha: “Reflexão cândida e profunda sobre a falta de alternativas, este livro é também sobre a razão que, aliada à imaginação, faz brotar saídas.

Duas meninas (abandonadas)

Adriana Lisboa conversava esta semana em Princeton com os alunos de um curso intermediário de português que haviam lido seu Azul Corvo. Uma das questões tocou um ponto sensível: na busca de um pai real nos Estados Unidos, Vanja, a personagem-narradora do romance, teria abandonado um espaço eminentemente feminino, no Brasil. Os homens são sempre fracos ou distantes, nos livros de Adriana?

O além do laço: de Nietzsche a Lady Day, passando por poetas e buracos

Num dos fragmentos da Gaia Ciência, Nietzsche se declara, uma vez ao menos, amigo dos utilitaristas. A poesia tem utilidade, “uma grande utilidade”: ao deixar o ritmo permear o discurso, torna mais próximos os deuses. A mecânica dessa aproximação é simples. A oração ritmada, como um tiquetaque, chega mais longe e pode atingir os ouvidos divinos. A Nietzsche interessa devolver a potência ao sujeito, mostrando-lhe que ela existe na distância que o separa dos deuses. O ritmo é uma coação, porque ele enlaça e o corpo dança, queiramos ou não. Não há como resistir.

Do Facebook. Ou de como Montaigne faria hoje os seus amigos

Há poucos dias me emocionei com um vídeo em que Lachlan, um bebê de sete semanas, reagia maravilhado aos primeiros sons que ouvia, graças a um aparelho de surdez recém-implantado. Aquilo me pareceu sagrado: o brilho nos olhos do menino, que até ali esperneara com o invasivo aparelho, provinha das lágrimas que de repente estancaram e, no mesmo instante em que ele ouviu o som ao redor, cederam a um sorriso e a uma pequena boca aberta, como um biquinho que quer significar algo. Não há pessoa de bem que não se emocione diante da cena.

Voltando no tempo

A ideia do instantâneo vaza toda nossa concepção do ato fotográfico, como se com a fotografia pudéssemos finalmente compreender o mistério das variáveis discretas, do instante que se antepõe ao instante, e do mundo que, ao invés de deslizar, separa-se em momentos estanques. O resultado dessa pobre concepção da fotografia é a relação analógica entre o real e a imagem: sem duração, não haveria mais a presença do homem, que se torna mero sustentáculo da câmera.

No es fácil

O discurso de Obama anunciando o que talvez venha a ser a suspensão do embargo a Cuba parte de uma premissa: os mapas desenhados antes que nascêssemos não nos dizem respeito. É uma premissa em si mesma corajosa. Talvez tenham razão os que se mostram céticos em relação ao movimentos dos Estados Unidos. O que querem? Por que uma possível suspensão do embargo, e quais deveriam ser os seus termos?

Vestibular e futebol

Foi divertido receber esta prova de um vestibular em Campinas. O primeiro tema para a redação é o futebol como símbolo nacional. Estendo o convite à leitura que me fez o Ricardo Gaiotto: Prova Esamc 2014.

O pai, lá em cima

Uma história sempre esconde outra, que esconde outra, e assim por diante, até que a cadeia se interrompe e surge um relato capaz de siderar todas as histórias. A narrativa funciona então como um alento que permite às personagens de uma trama confusa respirar. No novo livro de Chico Buarque, esse sopro vital vem do século XX inteiro: nazismo, cultura de massas, guerra fria, ditaduras, intelectuais, música, afeto e política, tudo se junta na busca pelo que o pai deixou inexplicado.