Pedro Meira Monteiro

Debate sobre o homem cordial ainda está vivo

No Jornal da PUC-Campinas – nº 168 agosto/setembro de 2016:

“Debate sobre o homem cordial ainda está vivo”
 
Para o pesquisador Pedro Meira Monteiro, Sérgio Buarque de Holanda estava errado quando, na década de 1950, declarou a morte do homem cordial. “Infelizmente, o morto se converteu num fantasma que volta para assombrar a todo o momento”, diz pesquisador.
 
Por Amanda Cotrim
 
Em sua aula inaugural do segundo semestre de 2016, a Faculdade de Ciências Sociais promoveu um debate atual e, por que não dizer, necessário a todos os futuros cientistas sociais que se formarão pela Instituição: uma reflexão sobre a importância de Sérgio Buarque de Holanda para a compreensão do Brasil. Para isso, a Faculdade trouxe o pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Pedro Meira Monteiro, o qual escolheu a Universidade para lançar o livro “Signo e Desterro – Sérgio Buarque de Holanda e a Imaginação do Brasil”, pela Hucitec. O evento aconteceu no dia 10 de agosto, no Auditório do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CCHSA), no Campus I da Universidade e contou com casa cheia de alunos interessados em debater o Brasil.
Na primeira parte do livro, a obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, é analisada tendo em vista as leituras que o marcaram, assim como os debates em que o autor se envolveu, da juventude modernista à consagração como historiador e crítico literário. Numa segunda parte, discute-se a insuficiência do signo nacional e a poética do exílio e do deslocamento, de modo a ampliar, num paralelo com o discurso latino-americanista, a compreensão dos impasses da modernidade em sociedades de origem ibérica; ao colocar em suspenso tanto as soluções totalitárias quanto o liberalismo. Raízes do Brasil foi vincado pela ambivalência, produzindo incertezas e quase nunca apontando soluções. Na terceira e última parte, a matriz “buarquiana” é analisada em discussões que, bastante posteriores a Raízes do Brasil, transformaram o cinema, a ficção e o ensaio em veículos de questões que já pulsavam na imaginação do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda.
Pedro Meira Monteiro é Doutor em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Professor de Literatura Brasileira na Universidade de Princeton. É autor, entre outros, de Signo e Desterro: Sérgio Buarque de Holanda e a Imaginação do Brasil, pela Hucitec, e organizador de A Primeira Aula: Trânsitos da Literatura Brasileira no Estrangeiro, pela Hedra.
 
 
Confira a entrevista na íntegra:
 
1.            Qual é a importância de lançar o livro “Signo e Desterro – Sérgio Buarque de Holanda e a Imaginação do Brasil” na PUC-Campinas e poder realizar  debate com futuros cientistas sociais e historiadores?
Para mim é uma emoção, sempre, falar com futuros cientistas sociais e historiadores, já que eu mesmo sou um ex-aluno de Ciências Sociais. Ao mesmo tempo, Campinas faz parte do meu mapa sentimental e intelectual, porque eu me formei aqui e eu não teria feito nada do que fiz sem essa experiência rica de quase quinze anos, desde que ingressei na graduação, em 1988, até me doutorar, em 2001.
 
 
2.            Qual foi sua motivação para produzir o livro “Signo e Desterro”?
O livro é o resultado de uma pergunta sobre o sentido do deslocamento: o que significa estudar o Brasil estando fora dele? O que ocorre quando o país é enunciado do estrangeiro, em que outras agendas de pesquisa e outras formas de leitura prevalecem? Eu saí do Brasil há quase quinze anos, e é desse ponto de vista “estrangeiro” que eu resolvi escrever novamente sobre a interpretação do Brasil por Sérgio Buarque de Holanda, um autor que sempre me interessou muito, e que aliás concebeu seu livro de estreia, Raízes do Brasil, quando estava no exterior, morando na Alemanha, entre 1929 e 1930.
 
3.            As obras, além de construírem referências sobre o assunto que tratam, tornam-se, elas mesmas, grandes temas. Raízes do Brasil enquadra-se nessa classificação? Exatamente por quê?
Sim. Por um lado, no plano da forma Raízes do Brasil contém mais perguntas do que respostas; por outro lado, sua caracterização do Brasil é ainda muito poderosa. Por uma dessas razões, ou talvez por ambas, o fato é que o livro se tornou um clássico. Não um “clássico de nascença”, como escreveu o crítico Antonio Cândido, mas um clássico que se construiu ao longo do tempo. Raízes do Brasil é também uma marca, uma espécie de selo de prestígio. O livro ganhou vida própria, o que, às vezes, me parece estranho, porque as pessoas falam dele sem conhecê-lo, e, às vezes, falam como se o conhecessem.
 
4.            As transformações da História e das Ciências Sociais, enquanto processos de investigação científica, e as mudanças verificadas na sociedade brasileira, desde a última edição de Raízes do Brasil, afetam a importância (teórica e metodológica) das conclusões observadas no livro?
Sim. Ninguém mais escreveria hoje em termos da descoberta de um “caráter nacional brasileiro”, porque essa é uma noção muito estática e essencialista do Brasil, distante do tipo de investigação que se faz hoje no âmbito das Ciências Sociais e dos estudos históricos. Ainda assim, se por um lado os termos são datados, por outro lado o poder de iluminação de Raízes do Brasil é ainda muito grande. É um livro também sobre os limites da definição do caráter nacional. E isso pouca gente viu ou comentou. É o que eu quis reforçar no meu livro, justamente: o livro de Sérgio Buarque tem muito de atual, porque ele não acredita completamente nos próprios termos com que está lidando. Ele fala num “caráter nacional”, mas o que ele explora não é estático nem essencial. Ao contrário, é histórico e mutável.
 
5.            Na segunda parte do seu livro, o senhor discute o que chamou de insuficiência do signo nacional. Qual seria esse signo e por que ele é insuficiente?
Sérgio Buarque lidava com a ideia de um país que se formava, cujos contornos são difíceis de traçar. Minha hipótese é que ao falar de um “país” como algo inteiro, ele também acaba inadvertidamente falando da linguagem como tentativa, fadada sempre ao fracasso, de “capturar” o seu objeto. A linguagem pode falar do objeto, mas não pode pegá-lo nem encerrá-lo. Assim também com o Brasil, em Raízes do Brasil. Trata-se de uma discussão da linguística clássica, que tento trazer para o debate cultural e sociológico.
 
6.            Quais são os destaques na nova edição crítica de Raízes do Brasil
A sua atualidade desconcertante. Basta ver, na última semana, o interesse que gerou a edição crítica lançada pela Companhia das Letras, que eu organizei com minha colega Lilia Schwarcz, com texto estabelecido por nossos orientandos Mauricio Acuña e Marcelo Diego. É um livro que se alterou muito ao longo de trinta anos, e faltava essa edição crítica, que desse conta das variantes e dos diferentes contextos de publicação.
 
7.            Quais foram os maiores desafios para essa edição crítica?
Para a edição crítica de Raízes do Brasil publicada na semana passada, o maior desafio foi mesmo resgatar todas as variantes e perceber os movimentos internos do texto, que vai se alterando ao longo de cinco edições. São alterações muito significativas, que mudam o tom, mas, também, o fundo das discussões, como se houvesse uma guinada ideológica também, e o livro se tornasse mais “radical” e “democrático” à medida que o autor o revisava. É um exemplo impressionante de uma obra em movimento.
 
8.            A polêmica sobre a cordialidade brasileira continua tendo sentido e importância? Por quê?
Sim, porque o homem cordial está vivo a todo instante: no momento em que o deputado vota em nome da família, no momento em que eu burlo a lei, no momento em que sou capaz de furar a fila e em seguida critico a falta de decoro em Brasília, etc. Na década de 1950, em pleno desenvolvimentismo e com a ideia da modernização batendo à porta, Sérgio Buarque declarou a morte do homem cordial e disse que ele era um “pobre defunto”, porque numa sociedade industrializada e urbana, que então se formava, as relações pessoais deixariam de prevalecer. Mas ele estava errado, infelizmente, e o morto se converteu num fantasma que volta para nos assombrar a todo momento. Basta que olhemos à nossa volta.

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