Pedro Meira Monteiro

Debate sobre o homem cordial ainda está vivo

Em sua aula inaugural do segundo semestre de 2016, a Faculdade de Ciências Sociais promoveu um debate atual e, por que não dizer, necessário a todos os futuros cientistas sociais que se formarão pela Instituição: uma reflexão sobre a importância de Sérgio Buarque de Holanda para a compreensão do Brasil. Para isso, a Faculdade trouxe o pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Pedro Meira Monteiro, o qual escolheu a Universidade para lançar o livro Signo e Desterro – Sérgio Buarque de Holanda e a Imaginação do Brasil, pela Hucitec. O evento aconteceu no dia 10 de agosto, no Auditório do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CCHSA), no Campus I da Universidade e contou com casa cheia de alunos interessados em debater o Brasil.

Na primeira parte do livro, a obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, é analisada tendo em vista as leituras que o marcaram, assim como os debates em que o autor se envolveu, da juventude modernista à consagração como historiador e crítico literário. Numa segunda parte, discute-se a insuficiência do signo nacional e a poética do exílio e do deslocamento, de modo a ampliar, num paralelo com o discurso latino-americanista, a compreensão dos impasses da modernidade em sociedades de origem ibérica; ao colocar em suspenso tanto as soluções totalitárias quanto o liberalismo. Raízes do Brasil foi vincado pela ambivalência, produzindo incertezas e quase nunca apontando soluções. Na terceira e última parte, a matriz “buarquiana” é analisada em discussões que, bastante posteriores a Raízes do Brasil, transformaram o cinema, a ficção e o ensaio em veículos de questões que já pulsavam na imaginação do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda.

Pedro Meira Monteiro é Doutor em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Professor de Literatura Brasileira na Universidade de Princeton. É autor, entre outros, de Signo e Desterro: Sérgio Buarque de Holanda e a Imaginação do Brasil, pela Hucitec, e organizador de A Primeira Aula: Trânsitos da Literatura Brasileira no Estrangeiro, pela Hedra. Confira a entrevista na íntegra:

AC: Qual é a importância de lançar o livro Signo e Desterro – Sérgio Buarque de Holanda e a Imaginação do Brasil na PUC-Campinas e poder realizar debate com futuros cientistas sociais e historiadores?

PMM: Para mim é uma emoção, sempre, falar com futuros cientistas sociais e historiadores, já que eu mesmo sou um ex-aluno de Ciências Sociais. Ao mesmo tempo, Campinas faz parte do meu mapa sentimental e intelectual, porque eu me formei aqui e eu não teria feito nada do que fiz sem essa experiência rica de quase quinze anos, desde que ingressei na graduação, em 1988, até me doutorar, em 2001.

AC: Qual foi sua motivação para produzir o livro Signo e Desterro?

PMM: O livro é o resultado de uma pergunta sobre o sentido do deslocamento: o que significa estudar o Brasil estando fora dele? O que ocorre quando o país é enunciado do estrangeiro, em que outras agendas de pesquisa e outras formas de leitura prevalecem? Eu saí do Brasil há quase quinze anos, e é desse ponto de vista “estrangeiro” que eu resolvi escrever novamente sobre a interpretação do Brasil por Sérgio Buarque de Holanda, um autor que sempre me interessou muito, e que aliás concebeu seu livro de estreia, Raízes do Brasil, quando estava no exterior, morando na Alemanha, entre 1929 e 1930.

AC: As obras, além de construírem referências sobre o assunto que tratam, tornam-se, elas mesmas, grandes temas. Raízes do Brasil enquadra-se nessa classificação? Exatamente por quê?

PMM: Sim. Por um lado, no plano da forma Raízes do Brasil contém mais perguntas do que respostas; por outro lado, sua caracterização do Brasil é ainda muito poderosa. Por uma dessas razões, ou talvez por ambas, o fato é que o livro se tornou um clássico. Não um “clássico de nascença”, como escreveu o crítico Antonio Candido, mas um clássico que se construiu ao longo do tempo. Raízes do Brasil é também uma marca, uma espécie de selo de prestígio. O livro ganhou vida própria, o que, às vezes, me parece estranho, porque as pessoas falam dele sem conhecê-lo, e, às vezes, falam como se o conhecessem.

AC: As transformações da História e das Ciências Sociais, enquanto processos de investigação científica, e as mudanças verificadas na sociedade brasileira, desde a última edição de Raízes do Brasil, afetam a importância (teórica e metodológica) das conclusões observadas no livro?

PMM: Sim. Ninguém mais escreveria hoje em termos da descoberta de um “caráter nacional brasileiro”, porque essa é uma noção muito estática e essencialista do Brasil, distante do tipo de investigação que se faz hoje no âmbito das Ciências Sociais e dos estudos históricos. Ainda assim, se por um lado os termos são datados, por outro lado o poder de iluminação de Raízes do Brasil é ainda muito grande. É um livro também sobre os limites da definição do caráter nacional. E isso pouca gente viu ou comentou. É o que eu quis reforçar no meu livro, justamente: o livro de Sérgio Buarque tem muito de atual, porque ele não acredita completamente nos próprios termos com que está lidando. Ele fala num “caráter nacional”, mas o que ele explora não é estático nem essencial. Ao contrário, é histórico e mutável.

AC: Na segunda parte do seu livro, o senhor discute o que chamou de insuficiência do signo nacional. Qual seria esse signo e por que ele é insuficiente?

PMM: Sérgio Buarque lidava com a ideia de um país que se formava, cujos contornos são difíceis de traçar. Minha hipótese é que ao falar de um “país” como algo inteiro, ele também acaba inadvertidamente falando da linguagem como tentativa, fadada sempre ao fracasso, de “capturar” o seu objeto. A linguagem pode falar do objeto, mas não pode pegá-lo nem encerrá-lo. Assim também com o Brasil, em Raízes do Brasil. Trata-se de uma discussão da linguística clássica, que tento trazer para o debate cultural e sociológico.

AC: Quais são os destaques na nova edição crítica de Raízes do Brasil?

PMM: A sua atualidade desconcertante. Basta ver, na última semana, o interesse que gerou a edição crítica lançada pela Companhia das Letras, que eu organizei com minha colega Lilia Schwarcz, com texto estabelecido por nossos orientandos Mauricio Acuña e Marcelo Diego. É um livro que se alterou muito ao longo de trinta anos, e faltava essa edição crítica, que desse conta das variantes e dos diferentes contextos de publicação.

AC: Quais foram os maiores desafios para essa edição crítica?

PMM: Para a edição crítica de Raízes do Brasil publicada na semana passada, o maior desafio foi mesmo resgatar todas as variantes e perceber os movimentos internos do texto, que vai se alterando ao longo de cinco edições. São alterações muito significativas, que mudam o tom, mas, também, o fundo das discussões, como se houvesse uma guinada ideológica também, e o livro se tornasse mais “radical” e “democrático” à medida que o autor o revisava. É um exemplo impressionante de uma obra em movimento.

AC: A polêmica sobre a cordialidade brasileira continua tendo sentido e importância? Por quê?

PMM: Sim, porque o homem cordial está vivo a todo instante: no momento em que o deputado vota em nome da família, no momento em que eu burlo a lei, no momento em que sou capaz de furar a fila e em seguida critico a falta de decoro em Brasília, etc. Na década de 1950, em pleno desenvolvimentismo e com a ideia da modernização batendo à porta, Sérgio Buarque declarou a morte do homem cordial e disse que ele era um “pobre defunto”, porque numa sociedade industrializada e urbana, que então se formava, as relações pessoais deixariam de prevalecer. Mas ele estava errado, infelizmente, e o morto se converteu num fantasma que volta para nos assombrar a todo momento. Basta que olhemos à nossa volta.

–Por Amanda Cotrim, no Jornal da PUC-Campinas – nº 168 agosto/setembro de 2016

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