Pedro Meira Monteiro

Da humilhação à humildade: o futebol deste fim de semana

Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair

— Cazuza

Ai ai. O jogo da última terça-feira. Que dizer?

Vi em São Paulo, com amigos. Aqueles poucos minutos em que os quatro gols da Alemanha foram feitos passaram como um rápido e silencioso pesadelo: o pior dos mundos, o final agourento em que já não acreditávamos.

Deu vontade de escrever, mas eu ainda não tinha tido coragem de levantar a pena. E no entanto há algo a dizer, e é preciso dizê-lo antes deste fim de semana.

Anteontem eu conversava com Zé Miguel Wisnik, com quem assistimos à partida entre Argentina e Holanda. A conversa foi longe, porque Wisnik e o futebol sempre levam longe: passou pelo narcisismo, que Nuno Ramos já andou explicando por aí, e chegou a D. Sebastião e aos areais distantes em que o Rei se perde e se regenera o mito. . .

De fato, como esquecer aquela camiseta amarela tremulando enquanto o hino era entoado? Como se um morto-Neymar estivesse e não estivesse ali, para nos salvar e salvaguardar da decepção de subitamente saber quem somos.

Eu não invejo Zé Miguel Wisnik. Sua tarefa é explicar-nos, nem mais nem menos, o que aconteceu. Aguarda-se sua coluna deste sábado, n’O Globo, para saber que canto é esse em que nos metemos…

Mas o que eu mais espero deste fim de semana de decisões são duas coisas: o jogo de amanhã, contra a Holanda, e a entrega da taça no domingo, no Maracanã. O jogo de amanhã, porque o que mais me assustou, em meio à procissão de sustos da terça-feira, foi o fato de que, em suas entrevistas logo após o jogo, Júlio César e David Luiz falavam, emocionados, como se a Copa tivesse terminado ali. Como se não houvesse uma partida no sábado. Como se não houvesse nada aquém da vitória suprema, da confirmação da nossa ilusão compartida, da imagem querida que pretendemos que o espelho devolva, plácida, irrecusável e inequívoca. O eu que só quer a si mesmo confirmado como o mais belo, o campeão dos campeões, não é um outro… E não há sujeito quando o eu é apenas ele mesmo, quando se recusa a descobrir-se outro, sempre.

Outro amigo com quem divido a angústia, André Botelho, suspeita que nós nos afundamos num arranjo técnico pobre e previsível, enquanto os alemães teriam mostrado que aprenderam o futebol-arte, enformando-o com a civilidade que nos é estrangeira… Seria a ambiguidade da nossa cordialidade que se perdeu, diz ele, e teríamos ficado “com o familismo vazio da família Scolari”. Na sua formulação perfeita: “E a seleção alemã soube explorar o melhor dos dois mundos, o nosso e o deles”.

André conversa com Zé Miguel. E eu, metendo-me no papo imaginário, arrisco dizer que Felipão foi tão bravo quanto fraco, na entrevista que deu, logo após o jogo. Às perguntas banais, quase boçais, dos repórteres, respondeu dizendo que assumia a responsabilidade toda pela derrota, como se protegesse os seus “meninos” do momento terrível em que se descobririam incompetentes. Como um pai que nega ao filho o direito de um dia descobrir-se falho, Felipão proíbe a prole de entrar para o mundo adulto, que só começa quando o espelho se quebra e o sujeito tem que arcar com a dor de notar-se sozinho, diante da natureza inóspita. Não é difícil de perceber: o jogo só é pra valer quando se deixa transportar para esse outro campo em que o sujeito tem que se haver com o destino, sem a proteção mágica dos pais. Thiago Silva errou, e errou feio, quando fez aquela falta no goleiro da Colômbia e depois cometeu o desplante de fazer o gol, sabendo que a jogada tinha que estar parada, e que ele levaria o cartão amarelo que o tiraria da partida contra a Alemanha. Que ele, Thiago Silva, diga que foi “sem querer”, já é estranho, mas que o Pai-técnico apareça em seguida para dizer que “o meu menino não erra”, e peça à FIFA que o desculpe, é simplesmente lamentável. Lamento, Felipão, mas seria melhor botar os meninos a escutar Rita Lee. Essa mamãe não dá sobremesa não, cara!

Mas há que dizer: Felipão foi bravo também. Perguntado sobre a “dívida” que carregaria para o resto da vida, reagiu como alguém que se levanta do divã em sua última sessão de análise e afirma, alto e bom som: “nem dívida, nem crédito” (palavras suas), sou responsável pelo que fiz até aqui, mas não devo nada a ninguém. Fiz opções, assumo que as fiz, errei, e a prova de que errei está aí na nossa frente. Serei lembrado pela derrota vergonhosa, mas não devo nada a ninguém. A vida segue.

E eu diria: a vida segue amanhã, sábado, quando teremos que nos descobrir lutando pelo terceiro lugar, que de fato, e bem lá no fundo, é algo entre o primeiro e o último, entre o tudo e o nada ciclotímico em que mergulhamos. Aí volta Zé Miguel, no meu diálogo imaginário, que já não sei mais se é imaginário: dando um exemplar de Veneno Remédio para que eu o leve a Germán Labrador, que escreveu sobre a derrota arrasadora da seleção espanhola, no último número da piauí.

Há muito o que dizer, ainda, sobre futebol e política, messianismo e pátria, mercado e símbolo, dívida e culpa, o sujeito e a derrota. Que me perdoem os que não acham graça no futebol, mas sem graça mesmo é não perceber o alcance disso tudo. Numa última sessão (real?), minha analista, que é israelense e vive em Nova York, me conta que não conseguiu assistir ao segundo tempo do jogo contra a Alemanha, de tão angustiada que ficou. E no entanto, algo a intriga: todos sofrem derrotas mais ou menos acachapantes, mas será que só os brasileiros se sentem humilhados em tal grau? Não seria melhor reagir com humildade, ao invés de humilhação? Parece ter sido o que lhe disse um motorista de táxi haitiano, em Manhattan, logo depois do jogo.

Já quanto à taça, estou simplesmente gelado, pensando no que será da presidenta no domingo, no Maracanã. Tenho medo, por Dilma e por todos nós: o que “dirá” a vaia do domingo? Passaremos no teste da civilidade? Ou tomaremos todos no cu? Estamos todos fodidos, como prenunciou (de novo ele) Nuno Ramos?

Levei um puxão de orelha de outro amigo, que me disse que não era só a elite branca que estava nas arquibancadas do Itaquerão, no dia da estreia. Mas então quem estará lá, amanhã, na “arena” Mané Garrincha? Todos nós? Ou apenas eles? Mas então há “eles” entre “nós”…? Não somos um só? Nunca fomos?

Mais que uma ferida narcísica, talvez seja um ponto fratricida que ameaça estourar no domingo. Que possamos nutrir um ódio profundo pelos “hermanos” e flertar com a máquina de guerra alemã, agora toda envolta em gentileza com os nativos, é um tema em si bastante interessante, que no entanto me desviaria do assunto.

O que me preocupa mesmo não é a política continental. É a vaia nacional. O dedo em riste, o desejo de violação que mal se esconde no canto tosco que, sem que saibam os que gritam, talvez nos mande todos àquele lugar, onde não há proteção nem firmeza, porque a mãe-pátria nos traiu, e não nos resta nada além da decepção e da guerra.
O que será de nós, neste fim de semana?

Ai, ai.

Comments (2)

  1. Paulo Burian

    Excelente Pq!
    “Que me perdoem os que não acham graça no futebol, mas sem graça mesmo é não perceber o alcance disso tudo.”
    O pior de tudo é ver no dia seguinte a entrevista da comissão falar apenas em “acidente”. Falta mesmo humildade a esses caras que não conseguem assumir erros nem uma uma ocasião dessas.