Pedro Meira Monteiro

Chega de homem cordial (a palavra é outra: fronteira)

 

Mauricio Puls publicou, no último número de Cultura!Brasileiros, reportagem sobre “Semeadores ou ladrilhadores”, em que eu e Bernardo Buarque de Holanda somos entrevistados. A matéria vem a calhar, inclusive porque desvia o foco do “homem cordial” – verdadeira obsessão dos leitores de Raízes do Brasil, que este ano ganhou uma edição crítica. Abaixo, as perguntas de Mauricio e minhas respostas completas, que por falta de espaço não foram reproduzidas na revista:

1) Quais foram as principais alterações feitas por Sérgio Buarque de Holanda no capítulo “O Semeador e o Ladrilhador” ao longo das sucessivas edições de Raízes do Brasil?

Como no caso de outros capítulos, muitas passagens são apenas deslocadas, mas há também mudanças fundamentais, a começar pelo título do capítulo, que na primeira edição, de 1936, se chamava “Passado agrário (continuação)”. A metáfora do semeador e do ladrilhador, tirada do Padre Vieira, fornece o quadro da análise que atribui aos portugueses uma colonização menos rígida que a espanhola, e entra só na segunda edição, de 1948, tanto no novo título quanto numa das longas “notas” adicionadas ao fim do capítulo, que são o resultado das investigações que Sérgio Buarque vinha fazendo sobre as entradas no sertão a partir do Planalto de Piratininga, isto é, a partir do que hoje é a cidade de São Paulo. Essas investigações, que vão compor a segunda edição e as seguintes de Raízes do Brasil, haviam já resultado no livro Monções, de 1945, e resultariam ainda nos diversos estudos que mais tarde comporiam Caminhos e fronteiras, de 1957. Noto que, neste capítulo, assim como em outros, Sérgio Buarque vai “limpando o terreno” a partir da segunda edição, tornando o livro mais palatável, talvez, para os gostos do pós-guerra. Por exemplo, ele retira uma alusão elogiosa aos estudos de Gilberto Freyre, em que os nomes das flores dos jardins, durante a colonização portuguesa, praticamente evocam “poemas”, bem como apaga uma frase onde o bandeirante Raposo Tavares era considerado “extraordinário”. Nada que soasse demasiado elogioso ao caráter supostamente não violento da colonização portuguesa parece satisfazê-lo, a partir da segunda edição de Raízes do Brasil.

2) Você avalia que o caráter do “semeador”, com a sua plasticidade, decorre da condição periférica de Portugal no cenário político europeu?  A maneira como os portugueses aceitam as imposições naturais e adaptam seu modo de vida às circunstâncias locais não é um traço de países compelidos a aceitar a hegemonia de nações mais poderosas (Espanha, Holanda, Inglaterra), que podem, estas sim, moldar a paisagem de acordo com sua visão de mundo?

A noção de uma plasticidade maior dos portugueses é antiga. É claro que ninguém a sustentaria acriticamente, nos dias de hoje. Ela tem raízes sobretudo em Gilberto Freyre, que é o grande “mago” criador de mitos. Não é casual que Sérgio Buarque procure afastar-se dele a partir da segunda edição de Raízes do Brasil, embora a tese da plasticidade permaneça no livro, desta vez, a partir de 1948 (data de publicação da segunda edição), associada menos a um “caráter” português, e mais à ideia de que os colonizadores se amoldariam ao meio no embate criativo com novos cenários e novas gentes – na “fronteira”, que é uma palavra-chave para o historiador, a partir de 1945. (Nos anos do pós-guerra, quando Sérgio Buarque se aproximaria de Febvre e Braudel, a ideia de uma história cultural “da humanidade” devia ser um verdadeiro ímã para a imaginação das ciências humanas, como bem sugerem os comitês da Unesco de que participava então o historiador brasileiro.) Em suma, os portugueses se amoldariam ao meio com a consistência do “couro”, não com a rigidez do metal, segundo a metáfora que Sérgio Buarque utiliza em Monções. Mas você tem razão ao apontar que, no fundo da tese do avanço pelos sertões, em Raízes do Brasil, está a ideia de que uma pequena nação como Portugal se amolda ao cenário do Novo Mundo justamente por não possuir o poder de fogo de outras potências. Em chave ideológica, essa ideia resulta na idealização da maleabilidade do português. Em chave historiográfica, resulta no estudo minucioso do ponto de encontro entre culturas, onde o repertório europeu vai sendo paulatinamente abandonado, ou re-significado, no contato com a “diferença”. O problema é que é muito fácil saltar da hipótese historiográfica para a hipótese ideológica, imaginando o bandeirante como um agente civilizador, o qual cederia e capitularia diante do meio inóspito e do índio nem sempre dócil. O grande crítico da visão dos bandeirantes em Sérgio Buarque de Holanda é, contemporaneamente, Alfredo Bosi, na Dialética da colonização, de 1992.

3) A distinção entre essas duas visões de mundo, a do semeador e a do ladrilhador, suscitou vários debates entre os urbanistas no Brasil, mas essas discussões não se estenderam para as outras esferas. Você acha que a visão de mundo do “semeador” pode ser usada em outras áreas da cultura? Por exemplo, eu acredito que, tal como sustenta Sérgio Buarque, os “semeadores” predominam na história da arte do Brasil. Por exemplo, o barroco (“semeador”) teve uma duração e um impacto muito maior do que o neoclássico (“ladrilhador”), e seus efeitos ainda podem ser sentidos na arquitetura de Niemeyer ou Affonso Reidy. Ou, no caso da literatura, os românticos (semeadores) foram mais importantes que os parnasianos (ladrilhadores). E isso, de certa forma, se estende até o século XX: os neoconcretistas (Lygia, Oiticica) tiveram um êxito muito maior do que os concretistas (Cordeiro, Lauand).

A ideia é fascinante e, sem dúvida, como em tantos outros casos de intuições presentes em Raízes do Brasil, as discussões se estendem para além do campo imediato de análise. O que se está discutindo, a partir disso que logo acima eu chamei de uma virada “historiográfica”, é justamente uma forma de civilização, uma visão do mundo potencialmente mais “porosa” (as aspas são de desconfiança e espanto), porque crente no valor dos restos, da composição inaudita, de uma espécie de lógica da “gambiarra” (palavra que uso em alusão aos recentes debates em torno do retrato do Brasil traçado para a abertura das Olimpíadas no Rio, orquestrada, entre outros, por Daniela Thomas), segundo a qual não se tem jamais uma solução artística a priori, que se dê antes do encontro efetivo com o material a ser trabalhado. Nesse sentido, ao menos, a metáfora vale para pensar a longevidade do barroco, em sua lógica composicional aditiva e alegórica, a qual reaparece, como você bem sugere, no neoconcretismo de Oiticica e Clark. E isso se estende, talvez, nos dias de hoje, às investidas ensaísticas de Nuno Ramos, para quem a forma é também um embate com o concreto e uma possibilidade efêmera. Já quanto à literatura, tenho minhas dúvidas de que os românticos caibam na categoria de semeadores. É o próprio Sérgio Buarque, em Raízes do Brasil, quem acusa o pensamento romântico de bovarista, numa alusão ao seu caráter artificial, de “planta de estufa”. Mas ele mesmo sugere, ainda em Raízes do Brasil, que uma “flor” desajeitada nasceu nessa estufa: Machado de Assis. Eis um tema buarquiano interessante: Machado é semeador ou ladrilhador? Seja qual for a resposta, com a metáfora do Padre Vieira se está discutindo o cerne da criação, que oscila entre a fantasia e a experiência, isto é, entre o material conhecido e as formas irreconhecíveis que ele pode tomar nas mãos dos aventureiros que são, quase sempre, os bons artistas.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *