Pedro Meira Monteiro Literature, images, texts

Cenas de leitura

O ensaio a seguir saiu na piauí deste mês. Foi muito difícil escrevê-lo.

Ricardo Piglia A leitura é um tema que atravessa a vida e a obra de Ricardo Piglia. Onde estamos e quem somos quando lemos? São perguntas que retornam em seu último livro, Los Diarios de Emilio Renzi: Años de Formación, que acaba de ser lançado pela editora Anagrama, de Barcelona.

Emilio Renzi é a composição dos nomes do escritor (Ricardo Emilio Piglia Renzi). Duplo ficcional do autor, ele já aparecera em vários de seus romances. Observador agudo e um tanto solitário, Renzi tem prazer em descrever, jamais em intervir. A sugestão é clara: se queremos entender algo, convém ajustar o foco e observar o que veem aqueles que se posicionam no fundo da cena. O centro do palco é chato, previsível. A literatura, contudo, reconstrói o mundo a partir de cantos estranhos e becos sem saída.

Convivi com Piglia em Princeton, ao longo de quase uma década, até que ele regressasse a Buenos Aires. Era formidável tê-lo como colega, o único capaz de tornar uma reunião de departamento não apenas suportável, mas interessante. Ainda posso vê-lo falando, apertando o dedo médio e o indicador enquanto os olhos cerravam ligeiramente atrás dos óculos sempre pendentes. O jogo de perspectivas que ele trazia nos desconcertava e mudava o rumo da discussão. Com o tempo aprendi que se tratava sempre de uma nova maneira de ler o mundo.

Em seus diários, Renzi recorda, enquanto bebe num bar, que desde menino gostava de repetir o que não entendia. Desdobra-se então a primeira cena de leitura: o avô, “ausente num círculo de luz”, tem o olhar fixo num “misterioso objeto retangular”. Como num segundo take (a literatura de Piglia é atravessada pelo cinema), o garotinho Emilio se senta no limiar da casa da infância e, imitando o avô, segura um livro aberto sobre os joelhos. É quando passa uma “longa sombra”, que se inclina e lhe diz que o livro está de ponta-cabeça. Num terceiro take, Renzi, de volta ao bar, supõe ter sido o velho Borges, que costumava passar as férias em Adrogué, cidade natal de Emilio, quem o alertara sobre o livro invertido.

Como sugere seu romance de 1992, A Cidade Ausente, o universo se mantém apenas porque alguém teima em deixar ligada uma máquina de contar histórias. Mas não se trata da permanência de um mundo artificial, como se a literatura fosse mera falsificação. Ao contrário, a ficção é capaz de sustentar um plano singular, ao menos enquanto resistimos ao apagamento da história. A metáfora das comunidades que se formam ao largo da cidade e de suas leis é muito forte em sua obra, como se a vida insistisse em afirmar-se contra a corrente, nas margens da sociedade, revitalizada em histórias que devem ser narradas para que possamos continuar vivos, diante da ameaça do corte extemporâneo e violento da morte. Piglia nos contava sobre os grupos de estudo que, durante a ditadura argentina, quando a universidade era vigiada, reuniam-se meio clandestinamente, numa espécie de aula particular que os alunos pagavam de acordo com suas possibilidades. No universo do escritor argentino, o dinheiro tem sua função redirecionada para a subsistência da comunidade alternativa, numa circulação que rejeita e questiona a acumulação.

A fascinação pela leitura corresponde à percepção de que os autores são leitores compulsivos e seletivos. Os cursos de Piglia em Princeton inventavam e reinventavam o cânone. Lembro do entusiasmo de seus alunos, maravilhados com a ideia de que, afinal, um crítico só pode existir se for capaz de inventar seu próprio cânone – essa imaginária estante mínima que cada um de nós monta a seu gosto. Foi nesse contexto que ouvi, da boca de seus estudantes (que agora seguiam meus cursos e traziam as discussões dos seminários conduzidos por Piglia), os nomes de Roberto Arlt, Rodolfo Walsh e Witold Gombrowicz, ou mesmo Macedonio Fernández, que iam formando galerias novas e improváveis na minha mente, e me levavam a perguntar quem era Ricardo Piglia.

Nos diários de Renzi, peças ficcionais e críticas se mesclam às anotações de um diário cujo autor – Piglia, Renzi? – tem algo de indecifrável. Afinal, de quem é a voz que ouvimos? No capítulo intitulado “Quem Diz Eu”, o primeiro parágrafo é um verdadeiro programa de teoria da literatura: “Como nos ensinou a linguística, o Eu é, de todos os signos da linguagem, o mais difícil de manejar, é o último que a criança adquire e o primeiro que o afásico perde. No meio do caminho entre os dois, o escritor criou o costume de falar de si mesmo como se se tratasse de outro.”

Ou seja, o Eu dos relatos, inclusive do relato de Renzi–Piglia, é uma pessoa ficcional ancorada entre a criação e o esquecimento, como que fadado a existir numa história que o mantém ao mesmo tempo preso e vivo. Arcadio Díaz-Quiñones, amigo e parceiro de Piglia em Princeton, relembrou que “Quem Diz Eu” é o prólogo de uma antologia de narrativas autobiográficas que o argentino organizou, em 1968, para a editora Tiempo Contemporáneo, com relatos de autores como Borges e Cortázar.

O trabalho editorial é um dos laboratórios de sua ficção. Para a mesma editora, Piglia dirigiu, entre 1969 e 1977, uma coleção de romances policiais intitulada Serie Negra. Tão sedutora quanto a psicanálise, a novela policial postula que nossos movimentos se dão sobre uma verdade oculta e poderosa, que nos dirige sem que saibamos por quê. Ao propor uma história e fornecer o quadro em que o sujeito deve se encontrar, a ficção pode ter algo de paranoico, como se ao fim de tudo devesse existir um sentido. Mas qual sentido? O que diz, aquele que escreve “Eu”?

Ler Piglia pode dar a sensação de que a realidade é um buraco imenso em que se cai, de repente, quando se abre um livro. O “misterioso objeto retangular” nos traga, tornando o mundo ligeiramente diverso do que é, como se a realidade mais próxima se fizesse distante e desconhecida, inaugurando uma nova perspectiva sobre o que até ali era familiar.

O último romance de Piglia é um campus novel – gênero de relatos que se passam nos campi universitários – intitulado O Caminho de Ida. Trata-se do mais perfeito exercício de aproximação e distanciamento. Escritor frustrado, o narrador é convidado a atuar como visiting professor na “elitista e exclusiva Taylor University”, que fica numa cidadezinha “esplêndida”, que “parecia fora do mundo a 60 quilômetros de Nova York”. Qualquer um que tenha visitado Princeton reconhecerá imediatamente os lugares, os nomes, as esquinas, e sobretudo – para os que vivemos e trabalhamos aí – os estranhos personagens envoltos na trama de morte e sedução que subjaz, latente, à pacata vida acadêmica. É inesquecível a cena do velho scholar que mantém, num imenso aquário em seu porão, sobre o qual se pode inclusive caminhar, um soberbo e deslizante tubarão.

Se o tubarão é (suponho) pura invenção, muitas das cenas são familiares, transportando o que conhecemos para o plano da ficção, convertendo as pessoas em personagens que ora se aproximam ora se distanciam do que chamamos “realidade”. Mas o que é a realidade, depois da experiência da leitura?

Ler um livro como O Caminho de Ida é uma revelação. Terei conhecido Nina, a vizinha russa que lia de tudo? Eu também não morei em Bayard Lane? Não ensinei na mesma sala, na biblioteca? Vem-me à mente Piglia, em sua casa, fascinado com o misterioso vizinho que ele via pela janela, lendo noite adentro, iluminado pela luz… de que realidade? A cena do leitor imerso em mistério aparece em seus livros, e agora, em Los Diarios de Emilio Renzi, a cena inaugural da leitura se revela o fundamento de toda uma relação com o mundo, a única forma de organizá-lo: com um livro em mãos.

A imagem do “círculo de luz” em que mergulha a face de quem lê é central para o autor, que adorava zombar dos cartazes que, durante sua juventude, faziam propaganda das absurdas técnicas de “leitura dinâmica”. O caráter sequencial da leitura (uma letra após outra, uma palavra em seguida à outra) o apaixona, justamente por estabalecer um percurso necessário e incontornável, que prende o leitor, como a história que ouvimos encantados e que não podemos acelerar. Há algo radicalmente analógico na leitura, sem prejuízo do que os meios digitais possam trazer. Tivemos inúmeras conversas a respeito disso, e recordo o momento emocionante em que, em sua casa, quando nos despedíamos, seus alunos do doutorado lhe deram de presente um Kindle previamente abastecido com uns tantos romances. Sua face se iluminou, e ele exclamou: “Uma máquina de ler!”

Ele gostava de dizer que há dois tipos de narrador, o viajante e o adivinho. Um se desloca e tem que regressar para contar o que viu; o outro interpreta os rastros e os sinais incompreensíveis a sua volta. Mas ambos estão atrás de uma história em que eles mesmos se envolvem, por meio da qual ficam suspensos entre o início e o fim, como o “Eu” que se equilibra, instável, entre a infância e a afasia.

Há cinco anos, quando Piglia decidiu que iria se aposentar, os colegas Paul Firbas, Fermín Rodríguez e eu o entrevistamos, com a intenção de discutir a literatura e os novos meios. Sua primeira observação foi a de que “os finais condensam sempre os sentidos”. Mas é preciso reconstruir a cena: ele chegou atrasado ao encontro, com Beba, sua mulher, e dois notários. Para nossa surpresa, os tabeliães traziam seu testamento, que era parte do processo de aposentadoria que ele começara a tramitar na universidade. Iniciávamos a entrevista, literalmente, como testemunhas do legado do autor.

Piglia se confessou fascinado por testamentos, porque eles ensaiam um fim impossível. No tom antimelancólico que lhe é próprio, dizia que “na vida não há finais, isto é, não somos conscientes da cena final”. Os finais são sempre artificiais, exteriores ao próprio fluxo da conversa. Se nada nos impedisse, talvez tivéssemos dialogado ininterruptamente por três dias. O mesmo, nos disse, aconteceria com as aulas – outro gênero que o escritor cultivava com grande apuro –, não fosse a “lógica social que organiza os finais” e impõe um encerramento, sempre externo ao próprio relato.

Recentemente, sabendo-o doente (Piglia tem esclerose lateral amiotrófica), escrevi-lhe um e-mail para contar da homenagem que prestáramos a Eduardo Coutinho em Princeton. Ele respondeu dizendo que, por coincidência, estivera há pouco lendo a entrevista que fizemos com ele, e que, ao lê-la, “as imagens voltaram como num sonho”. Hoje me dou conta de que, mais uma vez, tratava-se de uma cena de leitura, capaz de organizar os sentimentos e estabelecer uma ordem na narrativa. A sensação, estranha, era a de ser um personagem na imaginação dele. O resultado de um sonho, não mais que isso.

Em seguida, veio a notícia de que ele ganhara o prestigioso Prêmio Formentor, já em meados deste ano. Desde então, não troquei mais que umas tantas mensagens com sua assistente, que aparece, metamorfoseada numa musa, em Los Diarios de Emilio Renzi.

Não foi sem emoção e surpresa que descobri que o livro termina com um Renzi doente, incapaz de pronunciar a palavra “enfermo”, sempre dizendo aos outros que está apenas “um pouco enrolado” – exatamente a expressão que empregara em seu e-mail, e que agora, confirmo, é o signo compartilhado de um estado de espírito.

“Enrolado”, ele dita à assistente um diário que se converte na história de uma leitura: “Eles são, repetiu, voltando ao presente da conversa, eles são agora, para mim, a máquina do tempo.” Como um trapezista saltando no vazio sem rede de proteção, Renzi espera que um leitor apareça e segure a sua mão.

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