Pedro Meira Monteiro

Lula: anos de formação, de Alfredo Bosi

LULA: ANOS DE FORMAÇÃO

Alfredo Bosi

O filme “Lula, o filho do Brasil”, dirigido por Fábio Barreto e lançado em 2009, tem, a meu ver, um mérito incontestável, o seu título[1]. Quanto mais nos entranhamos na biografia de Luiz Inácio Lula da Silva, mais nos impressiona a sua relação intrínseca com o homem brasileiro, não tomado em geral, alegoricamente, mas o homem brasileiro, na sua condição concreta de pobre, nordestino, pernambucano do Agreste a meio caminho do sertão, logo também sertanejo, migrante, menino que trabalha na rua, aprendiz de operário, operário especializado, enfim membro de sindicato. Todas essas qualificações são típicas de uma certa condição de pobreza envolvendo esforços para conquistar uma vida decente.

O filme cobre, também, o que é menos típico, senão atípico: a conversão do jovem operário, aparentemente tímido e avesso a discursos, em líder sindical e a sua passagem para a criação e a liderança de um partido político. Mas fez bem em não explorar o que é excepcional, e, para muitos, quase inacreditável e, de todo modo, nada fácil de explicar em termos de sociologia determinista: sua ascensão à presidência da República.

Nem é tampouco essa a minha pretensão ao fazer este depoimento. Prefiro destacar na vida de Lula o quanto ela nos diz dos vários aspectos da condição da pobreza brasileira. Começando pelo começo, trata-se da pobreza, sim, mas da pobreza do Nordeste, a pobreza do Agreste pernambucano, vivida pela família de um lavrador de economia de subsistência em um distrito de Garanhuns, Caetés, onde moravam Dona Lindu e Aristides, pais de Lula. Nas décadas de 40 e 50 (Lula, sétimo filho, nasceu em 1945), toda a região, assolada pelas secas, estagnava sem receber recursos de políticas públicas. Aristides vendia farinha de milho para um moinho local, em troca de algum dinheiro para comprar, na feira de Garanhuns, açúcar, sal, querosene e sabão.

Creio que esse cenário de abandono não saiu da memória do líder operário e político Lula, que promoveria a disseminação do crédito rural. Dito de passagem: hoje Caetés abriga um grande parque de produção de energia eólica, que recebeu nomes devotos e promissores: Ventos de Santa Brígida, Ventos de São Clemente…

Da pobreza rural extrema da família resta o documento de uma fotografia do menino Lula com uma sua irmã, tirada aos três anos de idade: a roupa e os sapatos foram emprestados pelo fotógrafo. No mesmo ano do nascimento de Lula o pai abandona mulher e filhos e parte para Santos onde trabalhará como carregador de sacos em um armazém de café.

Em 1952, Lula tem sete anos. Dona Lindu resolve vender a casa e seus trens, reúne os filhos e emigra também para Santos, mais precisamente, para um bairro da periferia de Guarujá, Vicente de Carvalho, à procura do marido e do filho Jaime, que acabaria trabalhando como estivador. Foram treze dias e treze noites em um pau-de-arara. A condição da família agora é a de migrante.

Não é ocioso contrastar o fluxo da migração Nordeste-São Paulo nos anos 50 e 60 com o fluxo do retorno dos retirantes para o seu Nordeste, no caso, o seu Pernambuco. O que dizem as estatísticas? Na década de 2000, durante os dois períodos da presidência de Lula, cresceu significativamente essa volta para casa. Ainda chegariam de Pernambuco a São Paulo quase 150.000 migrantes, mas ao mesmo tempo retornaram 220.000, perfazendo um saldo negativo de cerca de 70.000 imigrantes. Lendo trabalhos de pesquisa sobre as causas desse retorno, aprendi que, sempre nessa década de 2000 a 2010, a taxa de crescimento acumulado na região Sudeste, com centro dinâmico em São Paulo, alcançava 35%, ao passo que a taxa de crescimento acumulado no Nordeste subia a 54%. As mesmas pesquisas apontam a ação eficaz de políticas públicas, não só assistenciais, como Fome Zero (“Que todo brasileiro possa ter ao menos três refeições por dia”, foi um dos lemas de sua campanha presidencial) e Bolsa Família, mas também devidas à difusão do crédito rural e à instalação de polos de desenvolvimento em toda a região.

Mas voltemos à figura do menino nordestino migrante que, com oito anos de idade, precisa absolutamente ganhar algum troquinho para ajudar nas despesas de casa. Lula começa a trabalhar como vendedor ambulante ao lado do irmão Ziza, aquele que seria o Frei Chico dos sindicatos do ABCD, militante de esquerda que a ditadura iria prender e torturar. “Amendoim, tapioca e laranja!” era o pregão que o menino devia entoar, nos cais de Santos, mas que o fazia morrer de vergonha… Preferia ser engraxate, e foi… Essa condição de trabalho infantil ilegal iria preocupar seriamente o Lula deputado federal e presidente.

Mesmo contra a vontade do pai, mas com a solidariedade da mãe, o menino frequentou o Grupo Escolar local até que as violências de Aristides contra os filhos e contra a própria esposa levaram-na a deixar o marido e a se mudar desta vez para um bairro operário de São Paulo, a Vila Carioca, distrito do Ipiranga. “A separação”, desabafou Lula, “foi um grito de liberdade que minha mãe deu”. Sobre a condição da mulher oprimida e maltratada no próprio lar certamente haveria muito que dizer, mas, de todo modo, o perfil de ambos os governos de Lula mostra claramente o seu envolvimento pessoal em lutar por todos os meios legais pela dignidade da mulher. É de 7 de agosto de 2006 a assinatura da Lei Maria da Penha por um presidente que testemunhou, quando criança, cenas de violência doméstica. Lembro, de passagem, que a lei foi assinada também por Dilma Rousseff, então ministra da casa civil da presidência.

Temos agora a condição do menino migrante que entrava na adolescência e enfrentava a semiformalidade, a rigor uma variante da clandestinidade do trabalhador dito popularmente “de menor”. Aos treze anos Lula conseguiu o seu primeiro emprego “com carteira assinada”. Devia atender ao telefone e dar recados nos Armazéns Gerais Columbia. Atrapalha-se e é logo demitido sem qualquer compensação legal. Adolescente desempregado, gostaria de ir ao cinema, mas só o faz quando consegue um paletó emprestado, o que nos faz pensar que alguma coisa melhorou, desde os anos 50, ao longo do difícil caminho para a construção de uma sociabilidade aberta e democrática.

Aos catorze anos, o ainda menor entra na Fábrica de Parafusos Marte, como aprendiz de metalúrgico: meio salário mínimo. Começa a sua carreira como operário. É preciso ajudar a mãe e os irmãos, e não há nenhum horizonte de estudo que vá além de um curso profissionalizante de torneiro mecânico patrocinado pelo Senai, recurso funcional que, em geral, definia para sempre o destino do adolescente pobre. Para o rapazinho Lula, esse horizonte era aceito naturalmente e até com a satisfação de poder assumir boa parte das despesas do lar de Dona Lindu.

Aos dezessete anos (1962) Lula passa a trabalhar na Metalúrgica Independência. Os turnos noturnos, que a legislação trabalhista vedava aos menores e às mulheres, são, porém, o seu cotidiano: trabalha junto à prensa entre 7 da noite e 7 da manhã, portanto mais horas extra do que o permitido legalmente. Conhece então em toda a sua crueza a “condição operária”, condição física e psicológica que, segundo Simone Weil, é inseparável de um acabrunhante sentimento de fadiga. Verdade que Lula provará na carne. Numa dessas madrugadas, por volta das 2 horas, quebrou-se o parafuso de uma prensa. Lula trata de consertar a peça. No momento em que repunha o parafuso em seu lugar, o operário que trabalhava na prensa naquela noite cochilou e largou o braço da máquina, fazendo-a desabar sobre a mão esquerda de Lula, esmagando-lhe o dedo mínimo. Lula teve de esperar até às 6 horas da manhã com a mão enrolada em panos para que o patrão, ao chegar, o levasse ao Hospital Monumento, conveniado com o INPS. O dedo é amputado na cirurgia. Mais um acidente de trabalho computado entre os milhares que se acumulam nas estatísticas do Ministério do Trabalho.

Nesse mesmo ano de 1962 Lula forma-se pelo Senai. Usaria gravata pela primeira vez… “Eu gostaria de ter podido fazer um curso superior. Eu gostaria de ser economista, mas não foi possível. Não fico me lamentando. O essencial eu tenho, que é o compromisso ideológico.” Como é notório, foi constante e eficaz o projeto do governo Lula que possibilitou o acesso ao ensino superior ao dobro do contingente escolar herdado: são sete milhões de matrículas, 126 novos campi que incluem faculdades isoladas, 14 novas universidades federais, criação do Prouni e do Fies, que garantem, via empréstimos a juros baixos, o acesso a faculdades particulares.

Mas voltemos à afirmação de Lula. Temos curiosidade de saber como nele despontou esse compromisso, cuja qualificação de “ideológico” provavelmente só viria mais tarde, pois teria sido precoce nesse período de fim de adolescência. Tenho duas pistas: Lula foi despedido da Metalúrgica Independência depois de uma discussão sobre aumento de salário. Em outra fábrica ficou apenas seis meses porque foi à praia em um sábado em vez de trabalhar no fim de semana além da obrigação contratual. Dois episódios significativos: no primeiro, o jovem operário tinha consciência da exploração salarial; no segundo, valeu-se do direito ao repouso semanal. Não por acaso, a revogação das leis trabalhistas é um dos anseios sempre reiterados dos governos neoliberais. Capital versus trabalho é a verdade escondida na retórica da conciliação de capital e trabalho. O fato é que, no governo, desde 2003, Lula encetou uma política de valorização sistemática do salário mínimo na expectativa de que os aumentos garantiriam maior poder de compra para os assalariados de baixa renda. O que, de fato, aconteceu.

Entre 1964 e 1965, nesses anos iniciais da ditadura militar e em meio a uma política econômica recessiva, o Lula de 19 e 20 anos conhece as agruras da condição de desempregado. É um momento de depressão, compartilhado por centenas de milhares de outros jovens aos quais se diz cruamente “Não há vagas”. Lula certa vez desabafou ao lembrar esse tempo de angústia: “Eu às vezes parava no caminho e chorava… Porque você perde a perspectiva”. Depoimento lancinante na sua perfeita concisão. Parar no caminho vem do cansaço de perambular de fábrica em fábrica. Chorar é sinal de frustração sem palavras. E depois, a reflexão existencial e social profunda: “porque você perde a perspectiva.” Somos confrontados com a desumanidade estrutural do capitalismo, ao dispor implacavelmente da vida do trabalhador, do seu braço e da sua mente: “porque você perde a perspectiva.”

A entrada nas Indústrias Villares, empresa próspera de São Bernardo do Campo, dá-se em 1966. Lula tem 21 anos. Da condição penosa de desempregado, o torneiro mecânico, no caso, contramestre júnior, passa a integrar a condição de operário na grande indústria, o que, em certo sentido, afeta a identidade do migrante sem eira nem beira dando-lhe um status novo, posto que ambíguo, na engrenagem do capitalismo industrial moderno, sediado no ABCD. Ambíguo na medida em que o operário nordestino considera um privilégio trabalhar em uma fábrica de porte da Villares, o que o leva a certo tipo de acomodação ideológica. Por outro lado, em plena ditadura civil-militar, reponta a consciência de classe que anos de peleguismo haviam amortecido. As lideranças sindicais começam a perceber que a exploração econômica, então somada à opressão política, está agravando a dependência do operário em face da classe patronal. É nesse convívio de alienação e consciência crítica que iria formar-se a consciência operária de Lula, oscilante entre o reformismo negociador e o confronto coletivo. Mais do que nunca, Lula é o filho de um Brasil contraditório.

Há testemunhos do próprio Lula, ao lembrar o que desejava e pensava nos primeiros tempos de operário na Villares: “Eu queria só ser um bom profissional, ganhar meu salário, viver minha vida. Ter filhos. Nada disso de ser liderança sindical me passava pela cabeça”… E assistindo a uma assembleia no sindicato, comparou as discussões a uma conversa de futebol, confessando, sem constrangimento, que gostava de ver novelas na televisão. Esse lado, que seria fácil classificar de alienado, foi sendo, pouco a pouco, alterado pela convivência com o irmão, Frei Chico, que o levou para a política sindical metalúrgica, convencendo-o, em março de 1969, a aceitar um cargo na chapa situacionista apoiada pelo Partidão. Segundo suplente, empossado em 24 de abril do mesmo ano.

(Abro um parêntese para dizer uma palavra sobre a vida afetiva do nosso operário: com 23 anos de idade, casa-se com a jovem Maria de Lourdes, depois de um namoro que vinha de longe. Casamento ceifado, dois anos depois, pela morte dela, vítima de um parto malogrado que, segundo depoimento de Lula, deveu-se à falta de atendimento médico em hospitais que tardaram em internar a moça já enferma de hepatite. O bebê tampouco sobreviveu. O trauma despertou no jovem Lula um sentimento de revolta, que se exprimiu neste desabafo: “Quem tem dinheiro pode tudo; quem não tem dinheiro não pode nada, não tem direitos estabelecidos. Como morreu a Lourdes, morrem milhões de pessoas por aí, nesse país sem ter o menor tratamento médico.” Reponta nessas palavras a consciência de que o pobre é um cidadão de terceira classe.)

Paralelamente à perda da mulher vai-se marcando a presença de Lula na política sindical, que já começa, nesses anos de chumbo, a partir da promulgação do AI-5, a enveredar por uma crescente confrontação com a ditadura patronal-militar. De segundo suplente Lula passa, em nova eleição, a primeiro secretário, encarregando-se do setor da previdência social.

Entre 1974 e 1975 (Lula com 29 a 30 anos de idade), a vida afetiva juntamente com a militância sindical se estabiliza. Lula casa-se com Marisa, viúva, adotando como seu um filho que ela traz do primeiro casamento.

O ano de 1975, em que a ditadura faz uma de suas últimas vítimas, o jornalista Vladimir Herzog, é um divisor de águas na carreira sindical de Lula: é eleito com 92% dos votos presidente do Sindicato, que conta com 100.000 operários. A sua plataforma, porém, é nitidamente reformista: nem capitalismo nem socialismo. Mas a prisão de Frei Chico e sua tortura no DOPS não deixam de afetar o líder de um “novo sindicalismo”, aquele que não depende diretamente nem da influência patronal nem do aval do Estado. Reeleito em 1978 com 98% dos votos, Lula firma-se como o maior líder sindical do país. É neste ano que um jornalista de fôlego, Mino Carta, entrevista Lula, que aparece na capa da revista Isto É. Data que, a meu ver, assinala a passagem atípica do líder sindical ao futuro criador de um partido que se honraria com o nome de Partido dos Trabalhadores.

Nessa entrevista fica explícita a certeza de que os partidos então existentes, tolerados pelo regime, o MDB e a Arena, “não representavam a classe trabalhadora. Não me interessa partido de cima para baixo.”

Essa é a ideia-força do novo sindicalismo, mas não só no meio operário consciente. A mesma proposta de volta à base da pirâmide social, que viria a ocupar o ideário da futura CUT, em 1982, permeava o pensamento dos intelectuais de esquerda refratários ao centralismo partidário e inspirava os militantes católicos que vinham formando, desde a década de 70, as comunidades de base. Uma convergência que acenderia as esperanças da esquerda democrática.

Não por acaso, a década de 80, que viu nascer o Partido dos Trabalhadores, foi agitada pela campanha das Diretas Já, de que Lula participou ativamente. Foi um sopro de pensamento democrático que se bateu vitoriosamente contra os últimos anos da ditadura, finalmente extinta em 1985 com a eleição do primeiro presidente civil, desde 1964, Tancredo Neves.

Quem se detiver na história desse período fecundo de expressão de uma consciência operária popular não poderá esquecer a eclosão das grandes greves e paralisações encetada em Primeiro de Maio de 1978 no ABCD, quando Lula atuou como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Foi então que a sua capacidade de negociar com a classe patronal mostrou-se inteira, custando-lhe desconfianças da parte de alguns grupos radicais, mas contribuindo, no momento traumático de proposta de demissão por parte da diretoria, para que a classe em peso lhe desse um voto de confiança. Daí em diante, Lula foi alvo de perseguições da parte da repressão policial-militar. Depois da maciça manifestação dos grevistas em São Bernardo, quando 80.000 operários ocuparam o Estádio de Vila Euclides, a Justiça do Trabalho declarou ilegal o movimento (março de 1979), tendo sido cassado o mandato de Lula, que em abril do ano seguinte seria enquadrado na Lei de Segurança Nacional e preso no DOPS por 31 dias. Iniciou então uma greve de fome, que só foi interrompida no sétimo dia em virtude de um apelo do bispo de São Bernardo, D. Cláudio Hummes. Como o Estádio de Vila Euclides tinha sido fechado por ordem da Justiça, D. Cláudio ofereceu a Matriz de São Bernardo para a realização das assembleias sindicais. Era a Igreja progressista, a Igreja da Teologia da Libertação, que dava apoio aos grevistas.

Na prisão Lula foi avisado da morte de Dona Lindu, vitimada por um câncer no útero. Obteve então permissão para assistir ao sepultamento, com a condição de retornar em seguida ao cárcere. Durante o enterro, muitos de seus companheiros tentaram dissuadi-lo de obedecer às ordens policiais, mas Lula, ciente dos riscos dessa atitude, voltou à prisão, que, em poucos dias, seria revogada (maio de 1980). Novo processo é instaurado em 1981 (com condenação e direito de defesa em liberdade) e finalmente anulado em 1982.

Uma palavra sobre a atuação de Lula como deputado federal na legislatura de 1987 a 1991, período que teve como fulcro os debates da Constituinte que resultaram na promulgação da Carta Magna em 1988. Lula, deputado mais votado da nação e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores, empenhou-se na aprovação das cláusulas relativas à legislação social trabalhista, além de ter apresentado, em nome do partido, uma proposta de Constituição amplamente participativa[2].

A partir de 1989 a sua atividade política intensificou-se: foi candidato à presidência da República. Aos cientistas políticos cabe a interpretação de sua carreira a partir dessa sua primeira tentativa eleitoral em nível nacional.

Conforme disse no início destas linhas, não é minha intenção deter-me no percurso de Lula como candidato e presidente da República. Tendo perdido três eleições, a primeira para Collor, a segunda e a terceira para Fernando Henrique Cardoso, só em 2002 conseguiu eleger-se, disputando com José Serra. De todo modo, como citei o filme “Lula, o filho do Brasil”, saldo aqui uma dívida com “Entreatos”, de João Moreira Salles, que acompanhou de perto a campanha eleitoral desde o fim do primeiro turno até o término do segundo (outubro de 2002), filmando de preferência os intervalos entre os atos públicos do candidato, ou seja, o Lula entre quatro paredes. Destaco uma longa fala de Lula no interior de um avião, ao lado de José de Alencar, seu candidato a vice-presidente. Considero esse momento bastante significativo do que se poderia chamar, talvez abusivamente, ideologia de Lula. Vale a pena revê-lo. Mais do que em outras ocasiões, os traços pragmáticos, no melhor sentido da palavra, deixam em segundo e controverso plano as afirmações ideológicas drásticas. No essencial, Lula descarta as pretensões dos petistas ditos radicais que prefeririam esperar por trinta anos a emergência de uma classe revolucionária a entrar na disputa, aqui e agora, pelo poder nas instâncias executivas e legislativas. Lula, ao contrário, mostra acreditar em uma dinâmica progressista que envolva o Estado democrático e a sociedade. O processo de socialização e de democratização pode começar a qualquer hora, desde que o governo entre em relação constante com os vários grupos, comunidades de base ou todo tipo de agremiações voltadas para o bem público. A certa altura, propondo uma pedagogia da participação política, Lula expõe a diferença que deveria estabelecer-se entre as práticas da esquerda tradicional, que leva os jovens para as fábricas a fim de os formar ideologicamente, e a estratégia que lhe parece o ideal de um partido de trabalhadores, isto é, trazer os operários e os camponeses sindicalizados para o embate político. Dá então exemplos de sindicalistas que se elegeram vereadores ou deputados, logo nos primeiros anos de vida do PT. O chamado pragmatismo de Lula, tão criticado pelos puristas, formou-se em contato com os líderes das greves do ABC e a partir da urgência de fazer uma política de baixo para cima.

[1] O filme baseia-se, em boa parte, na biografia de Lula de autoria de Denise Paraná: Lula, o filho do Brasil. (Ed. Xamã/Fundação Perseu Abramo, 1996).

[2] Tenho a informação de que entre as propostas de Lula, a serem incorporadas pela Constituição de 1988, estão emendas que asseguram o direito de greve, a licença maternidade ampliada para 4 meses e a jornada de trabalho de 44 horas.

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