Pedro Meira Monteiro

A literatura contra a morte: Antonio Candido (1918-2017)

A última vez que vi Antonio Candido foi em sua casa, no ano passado, quando eu e Lilia Schwarcz lhe demos um exemplar da edição crítica de Raízes do Brasil, que ele recebeu com grande entusiasmo. Nós, um pouco embaraçados, porque a edição no fundo vai contra a famosa interpretação que ele fez do amigo Sérgio Buarque, considerando-o um democrata “radical” já lá na década de 1930. Para nossa surpresa, Candido vibrou com a ideia, e nos disse, com todas as letras, que afinal talvez houvesse um pouco de exagero na sua interpretação. Mas, à parte a graça e a humildade com que falava de si mesmo, o que mais me impressionou foi a história que então nos contou, sobre o poder da literatura diante da morte.

Antes, há que dizer que a clareza dos textos de Antonio Candido, simples e profundos, têm provavelmente a ver com sua capacidade e seu amor por contar histórias, a que se somava, para os que o conheceram melhor, uma tremenda capacidade de imitar a fala e o jeito das pessoas. Essa escuta tão fina, voltada para as pessoas diferentes, atenta e curiosa, está toda lá, para quem quiser ver, nos Parceiros do Rio Bonito, sua tese de doutorado em sociologia depois publicada em livro, em 1964. Os agradecimentos aos “caipiras” da região de Botucatu ainda hoje cala fundo, neste nosso país tão maltratado: “Eram todos analfabetos, sendo alguns admiráveis pela acuidade da inteligência”. Ou então, aquela cena que ainda hoje me arrepia, no extraordinário retrato da socialista Teresa Maria Carini, a Teresina: “Convidava pobres e ricos para sentar na mesa, ao mesmo tempo se coincidisse, oferecia polenta caso fosse hora do almoço, falava da Rússia, de música e das novidades com o tom adequado. Um dia uma pessoa que foi visitá-la encontrou-a instalada entre a mulher do presidente da República e o Tio Pedrinho, preto velho rachador de lenha, feio como a necessidade, que estava almoçando com ela”.

A história que Antonio Candido então nos contou foi precedida por uma observação que resume o que era, para ele, o caráter esclarecedor da arte. Candido era um iluminista, sem que com isso deixasse de interessar-lhe o mais recôndito e misterioso, o obscuro e o impenetrável da vida. Ele nos disse primeiro que a literatura organiza as ideias, a música organiza a sensibilidade, enquanto as artes plásticas organizam a maneira de ver o mundo. Isto para contar, tão vividamente que nos comovemos, a cena, em que ele e Dona Gilda visitaram o amigo historiador, Sérgio Buarque de Holanda, já muito doente, às portas da morte. Sérgio não dizia coisa com coisa, e Candido nos conta que se perguntou então se eles tinham o direito, a despeito da intimidade, de estar ali e vê-lo naquele estado, a delirar. Mas eis que, de um golpe, Sérgio se levanta com seu chambre e começa a declamar a célebre oitava de Camões: “No mar tanta tormenta, e tanto dano,/ Tantas vezes a morte apercebida!/ Na terra tanta guerra, tanto engano,/ Tanta necessidade avorrecida!/ Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida,/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno?”. Candido a declama também, para ao fim nos dizer: a literatura lhe deu um último momento de lucidez.

A lucidez é um traço inequívoco nos escritos de Antonio Candido. Uma lucidez engajada, preocupada com o social e a política, um mundo de inquietudes escondidas sob a prosa límpida que não há quem não admire. Como me disse um outro amigo aqui em Princeton, quando lhe escrevi: mestre, era imenso.

Publicado na Folha de S.Paulo, no dia da morte de Antonio Candido (12 de maio de 2017).

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Pedro Meira Monteiro