Pedro Meira Monteiro

Zuca épica

Saiu hoje no Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco, sobre o último livro de Zuca Sardan:

Entre Hamburgo e o Rio de Janeiro talvez haja algo em comum. Não há de ser o clima, decerto, nem mesmo a luz batendo na cuca como se viesse direto do sol, sem intermediários. As duas são cidades portuárias, lá isso é verdade, abertas às surpresas que vêm do mar. No entanto, há uma ponte entre elas: o escritor carioca “Zuca Sardan”, poeta, desenhista, diplomata aposentado, radicado na Alemanha.

Escrachada, precisa, sua produção tem um pé na sátira e outro… na sátira também. Seu engenho está na criação de contrastes inesperados, no rebaixamento impiedoso de qualquer pompa, e na lembrança de que a literatura é, no fim das contas, uma gostosa brincadeira. Séria, mas gostosa. Aliás, o crítico que escreve sobre ele está desde o início encrencado: que “crítica” não é careta por definição? Como escrever sobre o humor sem retirar-lhe todo o sal? Há coisa mais chata neste mundo que humor explicado?

Mas o crítico não pode mandar o leitor às favas, nem obrigá-lo a comprar os livros para que se delicie por si mesmo. A função da crítica diante da sátira é esquisita: uma espécie de antessala asséptica que nos separa da diversão, como quando temos que cantar o hino da escola antes de começar o dia, ou, pior, antes de nos soltarmos no recreio.

Zuca Sardan é puro recreio, com o detalhe de que, se a gente não se comportou direito nas aulas de literatura, vai ficar boiando um bocado na hora de brincar. Esta, aliás, é uma característica da boa sátira: ela é altamente codificada, e exige do leitor que entenda, aqui e ali, que a brincadeira mais escrachada é também um diálogo com a literatura dita “alta”, sisuda. Não ouso sugerir ao leitor que leia Bakhtin, o que seria de um pedantismo atroz. Mas não custa nada dar uma olhada na questão do cronotopo que se abre ao “realismo fantástico” de Rabelais, quando as “vizinhanças familiares” são substituídas por “vizinhanças inesperadas”. Talvez seja pedir demais. Mas, como diria o caipira: “mar não faiz”.

Milorde e Medusa, publicado pela e-galáxia, é um divertido encontro, numa “gesta” rebaixada, entre as forças que o mito sustenta e o avanço do sujeito moderno, parvo e impotente. Ou, para colocá-lo de forma menos palavrosa: o que acontece quando o gozo do poder, figurado neste “Lorde Bill” tresloucado, que começa sua aventura em solitária e orientalista fantasia, se encontra com a força pulsante do mundo? E que é o mundo senão um gigantesco e comprometedor espelho que informa, deforma e assombra, até nos capturar? Penso no “Apito Vesperal”, o tabloide em que Bill lê seu horóscopo enquanto se afasta do cais e embarca numa aventura de prazeres sucessivos, fictícios e irresistíveis. No percurso, tudo é um pouco desconjuntado, excessivo, rasteiro, deixando no ar o sentido da viagem, enquanto, a bordo, rola “um fremente forró”…

Em “seis baladas totêmicas”, desenvolvem-se a trama e as “xaradas” que, no “lance de dados” que tanto rende na poética de Zuca Sardan, oferecem as pedras do jogo: sextilhas que se comunicam, anunciando aquilo que vai passar. Cada “xarada” (com xis, mesmo), no início das baladas, remete a uma sextilha que descansa no futuro, enlaçada aos feitos e desfeitos do herói, que aliás não é de nossa gente. Lorde Bill pode ter muitas características em comum com Macunaíma (o gozo perpétuo, a molecagem como régua das ações, o avanço desassombrado pelo léxico popular e erudito), mas seu continente é o mundo inteiro. Nada de selva e cidade, muiraquitã e gigante malvado. Apenas mares, mares que nem se sabe se foram dantes navegados. Digamos que a “Nau Catarineta” foi substituída pela “Nau Porqueta”. E o leitor que veja aonde isso vai dar.

O objetivo da viagem é uma incógnita deliciosa, mas o leitor (aquele que fez a lição de casa, ao menos) verá que se trata de um avanço ritmado, não na sublimidade das oitavas camonianas, mas no repente saltitante das sextilhas, em que vão entrando personagens fantásticos, vindos da literatura, da mitologia, e da imaginação amalucada deste zuca que parece querer remodelar a saga moderna. Medusa, a terrível górgona, a que comanda, é buscada em vão pelos fortes do mundo, e reaparece carnavalizada, “guapa” de “castanholas”, habitando a imaginação de todos. Gulosos irrefreáveis, muitos são os que querem a górgona para si, buscando aquela abundância que vira, nas manhas da linguagem, um plangente “oh Bundança!…”

Para além do ritmo e da escansão, em Milorde e Medusa há um trabalho precioso e sinuoso com a música das palavras, com a confusão dos idiomas, e com cadeias onomatopaicas divertidíssimas (olha aí o chato do crítico, anunciando, com seu arsenal de palavrões, o que só faz sentido no calor da leitura, diante da tela brilhante que vai sacar, garanto, os mais puros sorrisos do leitor).

O poder da linguagem que se solta e avança para além da gramática, assistida e vigiada pelos pudores da correção (mandados ao inferno pela consciência alerta do escritor), é um ponto alto deste livro, que me faz imediatamente lembrar da alegria que foi ler, recentemente, a Pornopopeia de Reinaldo Moraes. A diferença, importante, é que no livro de Zuca Sardan a concisão é a norma, embora a epopeia seja também submetida a uma torção, que faz com que o fio da meada seja, ao fim e ao cabo, o fio “da Tanga da Medusa”.

Mas talvez o mundo não seja tão vasto assim. Eis que, de repente, o pandemônio de Milorde e Medusa pode soar estranhamente familiar, como se de um pulo cruzássemos o oceano em gloriosa sincopação, e a górgona mergulhasse no carnaval de pandeiros e adufes, como se lê na batida da Safira, num sextilha a que, aliás, se apõe um sétimo verso: “Medusa de safira/ rebola o umbigo/ como ninguém/ Só tu, Medusa, sim…/ fofona vesga manhosa/ mas que classe supina/ e que charme da Grécia…”

Há ainda algo de felliniano na viagem, como verá o leitor. Viagem que é também a encenação da dúvida entre o navio poderoso, que arrosta os mares, e a casquinha de noz que flutua irresponsavelmente, carregando o que há de mais tentador neste mundo – e porventura no outro. Embarca-se, ou antes oscila-se, entre o navio e a jangada, sem que se saiba se o compromisso com o prazer é também um pacto com a morte: questão filosófica que, em algum momento, a própria Filosofia manda guardar no armário, junto ao bacalhau. O que importa é o labirinto sem fim que liga o prazer à morte. Nele, gozamos e nos arrependemos. Mas vivemos.

E como périplo lusófono que se preze deve terminar numa ilha na África oriental, a última balada aponta para Zanzibar, onde, ao invés de premiação eterna e revelação metafísica, como na gesta clássica, o que existe é a dança inquieta e incerta do desejo, destinada ao buraco negro que engole tudo ao final, como a fantasia fatal do sujeito que enfrenta o mundo, entre a galhardia e o ridículo, movido pela ilusão inesgotável do seu querer.

* * *

As vantagens da literatura digital são várias, embora, como diria amigo meu a quem a poeira dos livros parece sagrada, a bateria possa acabar a qualquer momento. Mas uma das vantagens é, sem dúvida, em comparação a outros livros do autor, poder ver os seus desenhos em cores (a depender do reader, é claro). Falando em delícia, um leitor informado na tradição satírica da caricatura poderia voltar longe no tempo e no espaço, mas, retringindo-nos aos muros da pátria amada, bastaria lembrar Millôr e Jaguar, para ficar com estes.

O que resta dos personagens, quando submetidos ao escrutínio dos desenhos de Zuca Sardan? Nada, ou talvez tudo, isto é, tudo aquilo que o herói clássico esconde, e que se expõe despudoradamente pela pena de um artista para quem desenho e literatura correm na mesma pista, céleres, mas sem jamais perder a ternura. Ao fim, a sensação, rara, é a de que o retratista não é cruel. Isto é, ele não parece pretender destroçar as esperanças, ou demolir o herói, por puro prazer. Sua literatura é uma gargalhada do começo ao fim, embora não seja a gargalhada da bruxa, com seu ancestral ressentimento diante da leveza alheia.

Pesando bem as coisas, há algo de bonachão no humor impiedoso de Zuca Sardan, como se os dentes fossem pontiagudos mas nunca mordessem até o final. Eles fazem cócegas, ali onde poderiam ser letais. O que me leva a pensar, aliás, que seu humor não é tão impiedoso quanto parece. Ele apenas nos suspende e nos deixa ver o grande teatro do mundo, sugerindo que ele não é vão. Ou, se é vão, é tudo o que temos… E se por acaso decidirmos apostar na vida, o melhor é escorregar por esse vão e ver no que vai dar.

Leia as xaradas, ou as charadas, caro leitor. Você não vai perder nada. E se perder, que importa?

Pedro Meira Monteiro é professor de literatura brasileira no Departamento de Espanhol e Português da Universidade Princeton.

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