Pedro Meira Monteiro

O além do laço: de Nietzsche a Lady Day, passando por poetas e buracos

Num dos fragmentos da Gaia Ciência, Nietzsche se declara, uma vez ao menos, amigo dos utilitaristas. A poesia tem utilidade, “uma grande utilidade”: ao deixar o ritmo permear o discurso, torna mais próximos os deuses. A mecânica dessa aproximação é simples. A oração ritmada, como um tiquetaque, chega mais longe e pode atingir os ouvidos divinos. A Nietzsche interessa devolver a potência ao sujeito, mostrando-lhe que ela existe na distância que o separa dos deuses. O ritmo é uma coação, porque ele enlaça e o corpo dança, queiramos ou não. Não há como resistir. Mas e se produzirmos o ritmo e o voltarmos em direção às forças que nos coagem? Os pés e as almas seguem o compasso, como se lê na Gaia Ciência, e os deuses tampouco resistem ao poder encantatório da música. Na aurora da poesia, as pessoas concluíram que podiam coagir os próprios deuses “mediante o ritmo, exercendo um poder sobre eles: jogaram-lhes a poesia como um laço mágico”. Devolve-se, à força que nos governa, o canto que governa.

O império do poema, sua capacidade (utilidade) de inverter as forças do domínio, fazem pensar na tarefa da poesia diante das profundezas que os deuses habitam, especialmente num mundo como o nosso, que não espera mais encontrá-los em algum monte distante. Mas que faz o poeta diante desse mundo remoto e profundo que se esconde, imperioso e tremendo? Entrega-se, ou levanta a alma? A voz sustém, sempre próximo, o abismo. Mas a poesia se abre em duas opções: ou fará olhar para cima, pronta a salvar-nos, ou nos manterá fascinados pelo buraco. Em outros termos: a sua utilíssima música nos põe de pé, ou Saturno ganha e não nos deixa olhar para cima?

Num de seus “poemas de Paris”, intitulado “Los mineros salieron de la mina”, de 1937, César Vallejo louva esses seres que vão às profundezas e de lá voltam. “Creadores de la profundidad”, é como se uma força coral, espasmódica, os trouxesse à tona, depois de tê-los levado ao fundo. É um poema de pulsos fortes e irregulares, nos seus versos brancos: “Los mineros salieron de la mina/ remontando sus ruinas venideras,/ fajaron su salud con estampidos/ y, elaborando su función mental,/ cerraron con sus voces/ el socavón, en forma de síntoma profundo.” A cova profunda leva às galerias que consomem o ser. Mas Vallejo não é um melancólico, e se deixa maravilhar diante da força titânica dos mineiros. A certa altura, já quase ao fim do poema, o mesmo sintoma das profundezas regressa, mas aqui o movimento é quase inverso, como se acordássemos e nos deixássemos enlaçar pela música daqueles seres de saliva rústica, ameaçados de perto pelo ferro: “¡Son algo portentoso, los mineros/ remontando sus ruinas venideras,/ elaborando su función mental/ y abriendo con sus voces/ el socavón, en forma de síntoma profundo!” A voz mineral, que antes encerrava a imensa grota que espelha a vida dos operários, alcança agora abri-la, formidável.

Vallejo, o anti-melancólico, mais um poeta que enfrentou a guerra entregando-se ao seu pulso enérgico e absurdo, perguntando pelo sem-sentido como quem olha na face a luta iminente. Sua poesia é um laço mágico, jogado em direção dos deuses.

E nas nossas minas, o que se lavrava então, e o que brotaria, logo mais? A poesia de Drummond talvez não seja de laços mágicos, nem toque no mesmo tom que a de Vallejo. Agora que A Rosa do Povo faz setenta anos, convém inquirir novamente os “minérios” que aparecem aqui e ali, quase sempre puxando para baixo, no “país bloqueado” em que as flores são pálidas, raras, mas são flores. Ao invés de homens, acaso teríamos somente o inseto que “cava/ cava sem alarme/ perfurando a terra/ sem achar escape”? Um campo imantado, profundo, que em Vallejo era o sintoma da impotência contra a qual se insurge a poesia, em Drummond se torna pura armadilha, caminho sem volta, ou talvez senda de onde se voltará apenas mais tarde, de mãos pensas, passada já a guerra, recusado enfim o mistério.

Os operários de Vallejo subiam as escadas olhando para baixo e desciam olhando para o céu. Os homens de Drummond, fugidios que só eles, “vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor”, apenas. Sua tarefa é menos heroica, mais submissa. Neles, o laço se afrouxou e a febre da ação cede à contemplação de um espetáculo em tom menor, de onde brota o trabalho, quando muito, “caprichoso, mas benigno”, sina diária do ofício dos homens, no “salão desmemoriado no centro do mundo oprimido”. Daí surgirá, no melhor dos casos, o amigo; não o inimigo, nem o soldado. O laço é frouxo, e as potências descansam no além, intocadas.

Cassandra Wilson's Shoes

Apollo Theater, Harlem, anteontem: Cassandra Wilson homenageia os cem anos de Billie Holiday. Como podem potência e delicadeza serem levadas, juntas, a tamanha altura?

Cassandra Wilson entra no palco com um transbordante vestido vermelho, uma diva. Segundos depois, sorri e descalça os sapatos, altíssimos. Eles ficam lá, inúteis, até que o show se acabe.

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Pedro Meira Monteiro