Pedro Meira Monteiro

Do Facebook. Ou de como Montaigne faria hoje os seus amigos

Há poucos dias me emocionei com um vídeo em que Lachlan, um bebê de sete semanas, reagia maravilhado aos primeiros sons que ouvia, graças a um aparelho de surdez recém-implantado. Aquilo me pareceu sagrado: o brilho nos olhos do menino, que até ali esperneara com o invasivo aparelho, provinha das lágrimas que de repente estancaram e, no mesmo instante em que ele ouviu o som ao redor, cederam a um sorriso e a uma pequena boca aberta, como um biquinho que quer significar algo. Não há pessoa de bem que não se emocione diante da cena.

Na página do Facebook que serve de espelho ao meu blog, posto às vezes links que me interessam e que podem interessar aos relativamente poucos seguidores daquilo a que chamei, inspirado numa passagem de Machado de Assis, “Pena vadia”. Contudo, não se tratando de uma página pessoal, não posso me tornar “amigo” de ninguém e tampouco tenho, eu mesmo, “amigos.” Apenas posso ser lido por aqueles que um dia “curtiram” a minha página.

A explicação é necessária para que se compreenda o que vem a seguir.

Pergunto-me o quanto o verbo “befriend” do inglês explica que se “façam amigos” com tanta facilidade no mundo do Facebook. Suponho que quando foi inventada por Zuckerberg e seus companheiros em Harvard, a plataforma do Facebook já continha o botão “befriend” [fazer amigo] como uma gema, espécie de pedra fundamental que explica o poder da rede que então se criava. Ao lado de outras plataformas (twitter etc.), o Facebook é uma dentre as várias – como se diz no Brasil – “redes sociais”. O que eu posto pode se tornar interessante para uma multidão de “amigos”, incluindo, é claro, os amigos dos amigos dos amigos etc. É o “ser” da amizade, da ligação e da escuta que está em questão. Até aí, tudo azul.

A amizade é a única “servidão voluntária” que La Boétie – o grande chapa de Montaigne no século XVI – talvez pudesse admitir. Ouvir o Outro é também prostrar-se reverencialmente diante dele, amá-lo. No mais, nas relações políticas que tanto interessavam aos pensadores do Renascimento, o tirano apenas se mantinha poderoso porque teimamos em ampará-lo: “não pretendo que o empurreis ou sacudais, somente não mais o sustentai, e o vereis como um grande colosso, de quem subtraiu-se a base, desmanchar-se com seu próprio peso e rebentar-se” (aqui, vertido ao português por Laymert Garcia dos Santos). Pierre Clastres, o grande antropólogo que às vezes se parece a um Rousseau moderno, pensa que La Boétie se aproximou da ideia de uma “sociedade contra o Estado”, isto é, das sociedades primitivas que recusam a dominação espúria e, no entanto, voluntária, dos seus membros. A sociedade sem Estado seria, em suma, uma opção.

Mas o que a amizade tem de sagrado? Ela é uma entrega sem escravidão, que se dá no momento em que a guarda é baixada, quando no Outro encontro o seio do conforto e da compreensão. Interessante que a amizade seja então um acontecimento, mais que uma prescrição. Não se pode ser amigo por projeto. Nem por contaminação ou imitação. A amizade é única, experiencial, e resiste à descrição de si mesma. O amigo, como o namorado, dispensa a reafirmação pública da relação. Mas o que fazer dessa relação quando ela se torna despudoradamente aberta, e os “amigos” passam a formar uma legião desencontrada de seguidores?

Quando Lachlan ouviu pela primeira vez a voz materna, havia algo de sagrado em sua experiência, talvez porque ali se reafirmasse um lugar para a mãe, assim como a amizade é uma reafirmação de um lugar para o amigo. (As relações com os amigos podem ser tão turbulentas quanto as relações com a mãe, mas essa é outra história.) O que me emocionou, em resumo, no vídeo postado no Youtube, que eu aliás imediatamente compartilhei com os leitores do Pena vadia, foi esse elo único, que repentinamente se refaz diante dos nossos olhos, na tela. Optei por chamá-la, à cena do elo, de “Sinfonia do Novo Mundo”, pensando na obra que Dvorák compôs durante sua visita aos Estados Unidos.

Mas que diabo! Ao selecionar o link e postá-lo na página do Pena vadia no Facebook, uma sentença apareceu junto ao vídeo: “Olha só esse bebê de 7 meses [sic] ouvindo pela primeira vez, não é lindo?”

Desconcertado pelo tom infantil, resolvi retirar o comentário inoportuno, e só então descobri que ele estava definitivamente colado ao meu “link”. Fiz uma rápida pesquisa para descobrir o link original, postado pelos pais de Lachlan, com a intenção de substituir o enlace que eu havia selecionado anteriormente. Com um misto de desgosto e admiração, descobri então que o bebê que escuta pela primeira vez constitui um tópico. Há incontáveis vídeos como aquele no Youtube, alguns tocantes, outros nem tanto. Após uns tantos minutos de Lachlans de todos os tipos, a sacralidade daquele primeiro vídeo se desfez, e o encanto cedeu diante da constatação de que se trata de uma coleção interminável de eventos, e não de um evento único. Desisti e acabei deixando o comentário como estava. (Afinal, apesar da imprecisão da idade do bebê, não era lindo aquilo?)

A questão da “reprodutibilidade” da experiência há muito tempo incomoda os filósofos e teóricos dos meios: a reprodução é sempre traição a um momento original, a quebra de sua sacralidade? Mas então sacralidade alguma se reconstitui naquilo que se registra mecânica ou digitalmente? Somos todos vítimas da perda definitiva da aura?

Nem de longe pretendo responder a tais perguntas. Mas a enchente de vídeos como o de Lachlan me faz pensar que os links “virais” são a ponta de uma grande perda: a unicidade do que aconteceu se esvai, vira padrão, moda, repetição. E no entanto, é legítmo perguntar: o interesse pelo vídeo, ativado pela rede de “amigos”, é uma empulhação? Mas quanto tempo se gasta diante de um vídeo desses? E a emoção que ele desperta? E a conversa que ele potencialmente gera?

Perde-se – o que, convenhamos, não é pouco – a reverência pelo momento único. O que é único resiste às palavras (boas ou más, infantis ou não) e exige silêncio. O Facebook oferece a mais alta velocidade no ver e ouvir, a tal ponto que se torna impossível parar diante do amigo, ou do Outro. O que me faz pensar na dominação, que é o contrário da amizade. (São polos ideias, é claro, porque tampouco há amizade sem poder.)

La Boétie, no manuscrito que confiou a Montaigne: “Que sofrimento, que martírio, Deus do céu! seguir noite e dia pensando em aprazer a um e no entanto temê-lo mais que a homem do mundo, ter o olho sempre à espreita, a orelha à escuta para espiar de onde virá o golpe, para descobrir as emboscadas, para sentir a fisionomia de seus companheiros, para avisar quem o trai, rir para cada um e no entanto temer a todos; não ter nenhum inimigo aberto nem amigo certo, tendo sempre o rosto sorridente e o coração transido; não poder ser alegre e não ousar ser triste.”

No Facebook, o mundo nos espreita, pronto para a emboscada. Talvez reste o sorriso nervoso no rosto dos amigos, e o coração aflito, apertado: “olha só, não é lindo?”

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Pedro Meira Monteiro