Pedro Meira Monteiro

Voltando no tempo

André Bazin dizia que o cinema é o acabamento, no tempo, da objetividade fotográfica.

A ideia do instantâneo vaza toda nossa concepção do ato fotográfico, como se com a fotografia pudéssemos finalmente compreender o mistério das variáveis discretas, do instante que se antepõe ao instante, e do mundo que, ao invés de deslizar, separa-se em momentos estanques. O resultado dessa pobre concepção da fotografia é a relação analógica entre o real e a imagem: sem duração, não haveria mais a presença do homem, que se torna mero sustentáculo da câmera. A lucidez, por seu turno, estaria no instante em que a imagem é roubada por aquele pequeno mecanismo sustentado pelas mãos impotentes do homem.

O mundo está lá fora e, conquanto doa em nós, ele não oferece, em troca do nosso desespero, mais que a luz de sua imagem, que entra pela máquina do cinema.

Bazin escrevia ao fim da Segunda Guerra, um ano antes que Rossellini filmasse um garoto passeando pelos escombros de Berlim.

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Pedro Meira Monteiro