Pedro Meira Monteiro

O pai, lá em cima

O texto a seguir saiu no Blog da Companhia, e é sobre o novo romance do Chico Buarque:

PD48f001 Uma história sempre esconde outra, que esconde outra, e assim por diante, até que a cadeia se interrompe e surge um relato capaz de siderar todas as histórias. A narrativa funciona então como um alento que permite às personagens de uma trama confusa respirar. No novo livro de Chico Buarque, esse sopro vital vem do século XX inteiro: nazismo, cultura de massas, guerra fria, ditaduras, intelectuais, música, afeto e política, tudo se junta na busca pelo que o pai deixou inexplicado.

O que o pai deixou não é pouca coisa. Sergio Buarque de Holanda (1902-82) não foi só o maior historiador brasileiro, como se tornou totem da tribo: devorador de livros, crítico literário e testemunha de um tempo em que a cultura ainda pretendia ser total, como uma biblioteca de Babel. A certa altura de O irmão alemão, a família de Sergio de Hollander recebe a visita do agente da ditadura Jorge Borges, que confisca livros da portentosa biblioteca cujos volumes formam as colunas que o narrador pensa sustentarem a casa. E o que seria desse lar sem os livros?

Um mistério envolve o professor Hollander, que lê e fuma ininterruptamente em sua espreguiçadeira, preparando uma obra que nunca se conclui. Entre os afazeres domésticos, sua mulher, Assunta, o assiste, trazendo-lhe um Bocage agora, um Pirandello depois, um Virgílio logo mais. De seu escritório no segundo andar, “distraidamente atento a tudo”, o pai vigia a casa, imerso num mundo que não está nem cá nem lá. É nesse estado perene de ficção que encontramos o que já conhecemos, embora, como nos sonhos, o familiar pareça estranhamente distante.

O caminho mais fácil é o da analogia: Assunta é dona Maria Amelia, Sergio de Hollander é Sergio Buarque de Holanda, o narrador é Chico Buarque etc. Fácil, mas insuficiente. Como em Sebald, o que conhecemos e o que lemos encontram-se tão cerca que imaginamos tratar-se da verdade, quando de fato o livro é apenas a saída que o autor arrumou para aprumar-se diante da pilha de histórias que ele não compreende.

Sergio Buarque brincava com a celebridade, apresentando-se como o “pai do Chico”. Quando lhe perguntavam se era filho de alemão, já que falava alemão, podia sair-se com esta: “Sou pai de alemão”, numa referência à estada em Berlim em 1929 e 1930. A história é retomada por Chico Buarque com traço de mestre, e só no final uma rápida pincelada biográfica deixa ver quem é o irmão perdido. A sensação, contudo, é de que já o conhecemos, porque o ouvimos antes na ficção. E será possível conhecer uma pessoa sem a ficção que nos aproxima dela: sem imaginá-la, descrevê-la etc.? Podemos chegar ao outro sem convertê-lo em nossa personagem?

O irmão alemão explora o legado do pai, ele mesmo, como historiador, mestre em aproximar-se de quem nunca conheceu. “Sergio diz todas as coisas com uma dicção confusa, embaralhada e dificílima”, escreveu Múcio Leão numa carta de 1931 a Ribeiro Couto (o mesmo que mais tarde cunharia a expressão “homem cordial”). Pela mensagem, hoje guardada num arquivo carioca, ficamos sabendo de uma “especialíssima encrenca” em que se metera Sergio, que “fez numa doce poética menina que ia visitá-lo ao modesto quarto da pensão, um filho”. Sua volta da Alemanha pode estar ligada ao processo que ele sofrera naquele país, segundo Múcio Leão, ou talvez ao novo contexto político brasileiro, no fim de 1930. Nem uma coisa nem outra está no livro de Chico Buarque, mas é possível sentir que o regresso de Sergio à pátria traz a ferida de uma desistência, nunca pensada de todo, apesar dos esforços posteriores por emendá-la.

Sejam quais forem as razões que o fizeram voltar, Sergio deixou o filho como um rasto, que Chico recupera, ao passear, como uma personagem de ficção, pelas memórias impenetráveis do pai. Como Sergio de Hollander, Sergio Buarque viveu o crepúsculo da República de Weimar, com sua frágil democracia, seus cabarés barulhentos, os experimentos artísticos radicais, seu cinema e sua liberalidade, que impressionavam o jovem brasileiro, entre ingênuo e agudo nos artigos publicados em O Jornal, de Assis Chateaubriand, entre os quais consta a célebre entrevista com Thomas Mann, cuja mãe era brasileira, filha de um alemão que, no Brasil, casara-se com “uma crioula, provavelmente de sangue português e indígena”, como se lê num texto da época, assinado por Sergio. Sem contar que as leituras alemãs, bem como o debate sobre a alma e o sangue dos povos, deixariam uma marca profunda em Raízes do Brasil, de 1936, onde a organicidade do Estado é um problema enorme, e a impessoalidade do liberalismo seria encarada com desconfiança. Ainda assim, resta um oceano entre a crença totalitária, que Sergio repele vigorosamente, e as “essências mais íntimas” da vida social em sua inata “desordem”, que ele seguiria pesquisando vida afora.

De volta à América do Sul, o jornalista e futuro historiador viveria o drama de ter um filho desconhecido e distante, sobre quem pesaria, logo mais, a ameaçadora suspeita do possível sangue judeu. Nessa história traçada entre o espaço privado e o público, fotos e documentos se interpõem, borrando as fronteiras entre ficção e realidade, sugerindo que o real só é suportável quando se narra, embora então ele já tenha escapado para o reino da história, que por sua vez só existe, para nós, quando é contada de novo, como numa canção.

A história é a do encontro sempre protelado entre pai e filho. Entrando sorrateiramente em casa, depois de uma noitada, o narrador encontra Sergio de Hollander de pijama, com os óculos à testa e, entre os dedos, um toco de Gauloises — o cigarro preferido de Sergio Buarque —, a perguntar se o filho mexera nos seus Kafkas. “Nunca”, diz o filho, para prontamente ouvir: “E o que é que está esperando?”.

A aproximação pelos livros marca também a distância entre os dois, que existe sem que se saiba por quê. Longe do pai e do meio-irmão, alheio a tudo, o irmão alemão é a lembrança de que a lealdade à família tem um custo, porque ficar perto dela é sustentar a proibição de falar de quem se ausentou, e de quem foi deixado pelo caminho. Mas falar de quem ficou pelo caminho não é a tarefa do historiador? E não seria esta, também, a tarefa do irmão, quando descobre que toda família é feita de silêncios? O irmão alemão aparece para recordar o silêncio e cobri-lo enfim de história.

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Pedro Meira Monteiro