Pedro Meira Monteiro

A sedução da decolagem

O texto a seguir, de Carmen Guerreiro, saiu na revista Língua Portuguesa, em junho de 2013. Ela fez (a mim e a colegas) algumas perguntas interessantes, sobre inícios…

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama transformado num inseto monstruoso”. Este início de A Metamorfose, de Kafka, contém – concentradas – as qualidades que séculos de escrita exigiram dos começos de texto: ser hipnótico (fisgar o leitor logo de cara) e desconcertante (instigar o leitor a completar a leitura).

– Metamorfose é o caso clássico de aberturas brilhantes, pois Kafka nos coloca, de cara, diante do monstro em que se transformou o cidadão pacato. É assombrador, porque está entre a simples alegoria e uma descrição realista que incomoda – analisa Pedro Meira Monteiro, professor de literatura brasileira na Universidade de Princeton, nos EUA.
Uma boa introdução é indício de que aquilo que está por vir pode ser igualmente bom, e por isso desperta a curiosidade e a expectativa do interlocutor.

– Preciso ler livros que me prendam no primeiro parágrafo – afirma o escritor Evandro Affonso Ferreira.

Para Evandro, um livro pode começar bem e terminar mal (ainda que isso seja mais difícil), mas raramente um que começa mal tem um bom desenrolar.

– Mesmo se ele terminar bem, não adianta nada, porque não vou acabar de ler para ver se ele termina bem.

Evandro afirma que exige de si mesmo um começo impactante para seus livros, e muitas vezes escreve o texto até a metade para só depois criar o início. Um livro de ficção que fica gravado na memória e se torna uma referência, para ele, precisa ter um início arrebatador.

Tempo escasso

A lição não é só da literatura. Em uma época em que o tempo é escasso, a atenção parece dividida entre estímulos vindos de todos os lados e há a intuição de que tudo já foi dito. Roteiros, aulas,

apresentações, palestras, discursos, imprensa e redações de vestibular seguem o mesmo princípio de impactar o público nos primeiros contatos para conseguir que ele chegue até o fim com o mesmo interesse com o qual começou.

No livro Beginnings, Edward Said descreve o começo não só como a via de entrada de um escrito, mas como ponto de comunicação com todos os outros escritos do gênero, que ficaram de fora.

– Adoro essa ideia, porque ela mostra que o que escrevemos é uma espécie de tábua de salvação no mar da escrita e da literatura. Um início pode ser o momento em que o autor e o leitor agarram essa tábua, sentindo de repente que talvez seja possível evitar o naufrágio – diz Monteiro, de Princeton.

Estas páginas sugerem estratégias para fisgar a leitura logo de início. É uma preparação de voo. Se cada voo exige uma decolagem única, é possível ajudar a criar nossa própria tábua de salvação.

Plano de voo 1
Imagine ser o interlocutor
Um primeiro plano de voo para um texto decolar com sucesso, segundo a professora Maria Aparecida Custódio, do Laboratório de Redação do colégio e do cursinho Objetivo, é colocar-se no lugar do público que receberá a mensagem.

– Você continuaria a ler o seu próprio texto a partir daquele 1º parágrafo? – provoca ela.

Um exercício feito na Academia do Palestrante, escola de São Paulo que oferece treinamentos a quem deseja ministrar palestras, é pedir à pessoa que introduza sua apresentação e, em seguida, ouça dos colegas o que entenderam daquilo que foi dito.

– Muitas vezes o que se entende é muito diferente do que se quis dizer. Muitas pessoas são inteligentes, sabem muito do assunto, mas quando precisam expressar isso, é um desastre – conta Edmar Oneda, fundador da Academia e especialista em programação neurolinguística.

Plano de voo 2
Escolha o tom
Uma estratégia para iniciar textos é dar o tom do que está por vir, fornecendo uma “pílula” do conteúdo que se segue.

Para o roteirista e escritor Ricardo Tiezzi, professor da pós-graduação em Roteiro da Faap e da Academia Internacional de Cinema, os primeiros minutos (ou linhas de texto) devem dar o tom do resto da mensagem, seja ele um filme, um discurso oral ou um texto, apresentando um pouco daquilo que está por vir. Assim como o senso comum diz que um filme de ação precisa começar com uma boa cena de ação, demais textos seguem a premissa.

– Se o seu filme é mais contemplativo, não faria sentido começá-lo com uma cena bombástica. É um pacto imaginário que diz: veja aqui um filme de aventura, perseguição, etc.

Pedro Monteiro, da Universidade de Princeton, considera memorável a abertura do romance Lolita, de Vladimir Nabokov.

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

A adoração do redator em 1ª pessoa pela sensualidade imberbe da enteada adolescente está toda contida no tom dado pelas primeiras frases do texto de Nabokov.

Plano de voo 3
Procure a ação mais significativa…
A escrita de um roteiro de cinema traz lições aplicáveis à literatura e a outros textos. O roteirista Ricardo Tiezzi ensina que é preciso encontrar a ação significativa para conseguir o primeiro impacto. É preciso perguntar-se: que informações sobre aquele conteúdo (no cinema, a trama; num texto, o assunto; etc.) precisam ser ditas logo de início? A resposta deve expor, de maneira menos óbvia e banal possível, as mesmas informações que serão em seguida desenvolvidas no mesmo texto.

– Expor escondendo significa dar a informação inserida em uma ação, sem ficar claro que ela está sendo dada. Uma abertura é como o xadrez: se for feita bem, você tem o jogo nas mãos.

O clássico do machismo moderno Kramer vs. Kramer (1979) começa com uma cena de café da manhã. Sem que seja preciso explicar nada, o público fica sabendo, por meio de pequenas ações, que o personagem de Dustin Hoffman não consegue lidar com a situação de administrar a carreira, ser abandonado pela mulher e cuidar do filho ao mesmo tempo.

Plano de voo 4
…Mas não entregue tudo de início
Deve-se evitar colocar todas as cartas na mesa logo de início nem despejar muitas informações de uma só vez sobre o leitor. Pois isso não gera expectativa pelo que está por vir.

A técnica da “exposição” (apresentar uma versão condensada da ideia central que será desenvolvida) consiste em deixar o tabuleiro bem armado para a história. Não é, necessariamente, entregar o jogo inteiro.

– A arte dessa exposição é conseguir estabelecer o jogo e apresentar o assunto ou mundo em que os personagens vão se movimentar, sem descarregar um caminhão de respostas. A ideia é plantar as perguntas certas – diz o roteirista Tiezzi.

O escritor Evandro Affonso Ferreira lembra, na literatura, da abertura de O Estrangeiro, de Albert Camus:

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.”

É o protótipo do começo em que a indiferença do narrador é apresentada de chofre, com poucos elementos verbais, sem necessariamente esgotar a informação que virá, mas contendo o embrião do que virá.

Plano de voo 5
Tenha conhecimento de causa
Para escolher a sua introdução em mensagens argumentativas, como uma redação de vestibular dissertativa ou um artigo, um passo é avaliar o tema proposto e qual é o seu conhecimento e domínio sobre aquele assunto. É preciso organizar as informações básicas que devem ser discutidas.

Maria Aparecida, do sistema Objetivo, explica que, embora as maneiras de começar um texto sejam inúmeras, uma forma indicada de demonstrar o domínio do assunto é contextualizar o tema historicamente.

– Vemos muito isso nas redações nota 10. A contextualização é decisiva, porque mostra que o redator tem repertório cultural diversificado, e remete o leitor a uma outra época.

Em Memórias de um Sargento de Milícias, por exemplo, Manuel Antônio de Almeida dá a lição:

“Era no tempo do rei.” Como quem não quer nada, a frase contextualiza a ação, o tema, de todo o livro.

Plano de voo 6
Use aberturas visuais
Aberturas “cinematográficas”, com descrição de movimentos e cenas, são convidativas. Maria Aparecida Custódio, do Objetivo, sugere narrativas de abertura. Mesmo que o texto seja dissertativo, iniciar com uma breve narrativa ou ação, que situe o tema em uma história, pode ser um grande começo.

– No ano em que houve uma proposta de redação sobre amizade, um candidato começou por contar a história do filme O Náufrago, em que o personagem de Tom Hanks cria um amigo imaginário, Wilson, que é na verdade uma bola. Tudo isso para provar que precisamos de amigos.

Maria Aparecida conta que aberturas narrativas são introduções clássicas, assim como dar explicação e descrição teórica de determinado fenômeno; emitir uma opinião; fazer uma citação (contextualizada, de alguém que confira credibilidade ao texto) e usar linguagem figurada (desde que comedidamente).

Plano de voo 7
Contrarie a expectativa
Começar com fatos surpreendentes, contrastes ou estatísticas é uma maneira de interessar o leitor à medida que o informa. Isso quebra a expectativa de leitura tanto em textos informativos como ficcionais.

Maria Aparecida Custódio, do Objetivo, lembra o início de um capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:

“Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis.”

A opinião sobre a pessoa está dada já no contraste – ele mesmo informativo – entre tempo e valor de uma só linha, sem que seja necessário uma descrição detalhada.

Recurso ousado é contrariar o senso comum ou as ideias dominantes da sociedade (a chamada dóxa dos gregos antigos). O escritor Evandro Affonso Ferreira exemplifica o tema com as primeiras frases de Anna Karenina, de Leon Tolstoi, em que a ideia socialmente dominante é contrariada pelo paralelo inusitado:

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Numa situação formal e de leitura impessoal, a professora Maria Aparecida, do Objetivo, não recomenda o recurso, pelo risco de uma redação de vestibular, por exemplo, ser lida por um examinador conservador.

Ainda assim, tem o seu valor. Ela conta que no ano em que o tema da Fuvest, o principal vestibular de São Paulo, foi “amizade”, um candidato surpreendeu a banca examinadora pela ousadia. Começou seu texto falando que a amizade não significava nada e embasou a tese ignorando os textos-base sugeridos pelo enunciado da prova. Sua redação teve nota máxima, mas foi na contramão do que era esperado.

Plano de voo 8
Incômodo e deslumbramentoOs melhores começos de textos são os que incomodam, tanto quanto os que deslumbram, segundo o professor Pedro Monteiro, de Princeton. A simulação de uma sensação de desconforto ou a apresentação ao leitor de um cenário ou uma imagem marcantes (potencialmente inesquecíveis) são os melhores inícios.

É o caso da abertura de A Metamorfose, de Kafka, ou de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, cita Evandro Affonso Ferreira:

“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.”
O jogo de palavras cria um ruído inicial contrariado pela clareza e pela riqueza expressiva.

Apresentar uma série de fatos que deixe o interlocutor sem respostas imediatas também pode ajudar a criar uma sugestão que estimula a curiosidade. Se bem realizado, o recurso pode fazer a pessoa interessar-se em saber o que aquilo terá a ver com o desenrolar do raciocínio.

Evandro Affonso Ferreira defende o gosto por mexer com tudo o que inquieta o leitor. Mas aquilo que inquieta alguns não tem o mesmo sentido para outros, por isso é necessário estar familiarizado com seu interlocutor.

Plano de voo 9
Use referências com cuidado
Pedro Monteiro, de Princeton, adverte: é preciso ter cuidado com as fórmulas.

– Empregada à risca, uma fórmula costuma converter-se numa armadilha que engolfa o escritor, tornando-o escravo de um fantasma, que é aquele leitor que “só vai gostar do meu texto se eu agradá-lo”.

Monteiro sugere que se usem referências para inspirar-se, mas sem se prender demais a elas nem apelar para inícios já existentes.

O ideal, segundo ele, é ficar entre a inspiração de uma cena inicial já vista e o desejo de inventar algo ainda não visto. Embora seja provável que o inconsciente domine e o empurre para um início que já existe, é primordial que seja uma cena que marque um tom, “funcionando como uma espécie de diapasão que vai soar no ouvido do leitor páginas adentro”.

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Pedro Meira Monteiro