Pedro Meira Monteiro

Debates modernistas

A entrevista abaixo, que dei a Alan Santiago, do jornal O Povo de Fortaleza, saiu em setembro do ano passado:

O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) e o escritor Mário de Andrade (1893-1945) corresponderam-se por carta durante um período fecundo: de 1922, quando eclode o movimento modernista no Brasil, até 1944, quando as aspirações iniciais dão lugar a um espírito crítico mais maduro. É esse conjunto de missivas que o professor da Universidade de Princeton (EUA), Pedro Meira Monteiro, investigou no livro Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda – Correspondência.

Com o correr do tempo, o também paulista Sérgio, que traçava uma carreira de jornalista e sociólogo no Rio, foi se tornando uma espécie de “consultor” do mais velho. Mário tinha em Sérgio, apesar da diferença de idade, uma figura que poderia fazer uma interpretação produtiva de sua obra.

Em entrevista, o professor Pedro Meira fala desse diálogo entre os dois pensadores e explica suas divergências.

OP – Como as correspondências trocadas por Mário com Sérgio foram importantes para construir o pensamento social ou artístico de cada um deles?

Pedro – Mário se guiou quase sempre pela sondagem de uma “cultura brasileira”, que ele buscava emblematicamente na voz do cantador, mas que aparece em toda sua obra musicológica e histórica, assim como em alguns momentos fundamentais da ficção e da poesia. Ele sofria profundamente pela “falta” de um termo que desse sentido à aventura coletiva nacional, e se guiava por uma noção religiosa da “cultura” como elemento de coesão comunitária e de reverência diante do poder da coletividade. É claro que isso vai se confundir, na década de 1930, com algumas tendências conservadoras e totalitárias. No entanto, Mário não era, de forma alguma, um conservador ou um totalitário. Pelo contrário, a sua concepção da cultura é a um só tempo totalizante e dilacerada, justamente porque ele é tragicamente consciente da incompletude do desejo coletivo, e do próprio projeto nacional pelo qual batalha.

OP – E Sérgio Buarque?

Pedro – Já Sérgio Buarque notou, muito cedo (a partir da década de 1920, como se pode perceber nas cartas e nos seus textos à época), que o projeto de Mário apontava para um termo conclusivo e estável, que o jovem Sérgio, como bom autor vanguardista, recusava vigorosamente. O interessante é que a coerência de Sérgio Buarque de Holanda o leva a ser, nas décadas seguintes, um historiador cuja atenção recai exatamente sobre os espaços movediços de uma sociedade em formação, sem que o atraísse a ideia da consolidação de uma cultura nacional. Creio ser todo o dilema do modernismo que está aí: de um lado, o grito de vanguarda que quer soltar-se no espaço e recusar todo e qualquer fundamento; de outro, a pulsão de um projeto nacional que pretende encontrar as bases mais profundas de uma cultura. Sérgio e Mário estão no centro desse dilema, sem que um e outro se reduzam a um dos polos do problema. Ambos vivem a questão da ordem e da desordem da formação nacional como um verdadeiro dilema. Mas Mário tende à “cultura” como horizonte de solução coletiva, enquanto Sérgio recua e fica com os espaços instáveis da história.

OP – Em palestra na Univesp, o senhor afirmou: “A partir de 1925, (…) a relação entre os dois vai ser pautada também pelo âmbito da interpretação e do julgamento – julgamento ansiado por Mário.” Por que houve essa urgência de Mário em relação a Sérgio?

Pedro – Essa urgência se explica porque Mário viu, já a partir de 1925, que Sérgio era quem mais fundo colocava o dedo na ferida de seu projeto totalizante de uma cultura nacional. E Mário não recusava o aspecto contraditório do pensamento. Pelo contrário, além da admiração pelo amigo mais jovem (Mário era quase dez anos mais velho), ele tinha consciência de que seu próprio projeto era agônico, porque vivia de uma impossibilidade, isto é, vivia da crença na consolidação da cultura nacional. E Sérgio seria o melhor intérprete dessa agonia. Note que não estou sugerindo que Sérgio seria um bom intérprete do projeto nacional de Mário, mas sim um intérprete profundo da agonia de Mário diante da impossibilidade desse projeto, que era a grande questão política e estética que prevalecia desde pelo menos a proclamação da República, com o fim da escravidão e a entrada do Brasil na órbita da “modernidade”.

OP – O que houve a partir de 1925 para ampliar a relação entre os dois?
Pedro – A razão da data (1925) é simples: foi neste ano que Sérgio escreveu um artigo na revista Estética, chamado “Perspectivas”, em que a ideia de uma “soltura” do espírito e da consciência aparecia, em contraposição a qualquer tendência intelectualista ou racionalista. Era o grande debate das vanguardas que se dava nos textos de Sérgio, e Mário percebeu isso imediatamente, especialmente em 1926, quando Sérgio escreveu um artigo muito polêmico, chamado “O lado oposto e outros lados”, que está nos apêndices do meu livro.

Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda – Correspondência
Organizador: Pedro Meira Monteiro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 448
Preço médio: R$ 49,50

De Mário de Andrade para Sérgio Buarque (8 de maio de 1922):

“Sei que Klaxon sairá no dia 15 sem falta. É preciso que não te esqueças de que fazes parte dela. Trabalha pela nossa Ideia, que é uma causa universal e bela. Estou à espera dos artigos e dos poemas que prometeste. E não te esqueças do teu conto. Desejo conhecer -te na ficção. É preciso que digas ao Manuel Bandeira que me lembro sempre e muito dele. Recordo -me do Ribeiro Couto.
E, mais uma vez, obrigado”

Dando sequência à série de matérias especiais sobre os 120 anos de Mário de Andrade (iniciada em abril e que seguirá até o mês de outubro, mês do aniversário do escritor), O POVO entrevista o professor Pedro Meira Monteiro, da Uiversidade de Princeton (EUA). As outras matérias da série estão disponíveis em www.opovo.com.br

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