Pedro Meira Monteiro

O dia mais triste do mundo: Jerusalém é aqui

No deprimente depoimento de Paulo Malhães à Comissão Nacional da Verdade, nesta última semana, veio à luz o que já se sabia, mas que, na boca do torturador, fica mais chocante: a mutilação dos corpos dos presos antes de serem descartados. Sobre o desaparecimento do corpo de Rubens Paiva, o coronel reformado declarou: “Eu só disse que fui eu porque acho uma história muito triste. Quando uma família leva 38 anos dizendo que quer saber paradeiro… Não sou sentimental, não. Mas tenho as minhas crises.” O laivo de humanidade se perde tão pronto ele declara não arrepender-se, nem lembrar com precisão a quantidade de pessoas que matou sob tortura.
Em “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt escava as razões, racionalizações e embates éticos que mobilizaram os agentes da repressão nazista, e empresta, à história dos envolvidos no holocausto, uma densidade que chocou muita gente, incomodando os dois lados. Afinal, como é possível perguntar-se sobre a humanidade do desumano?
Eichmann, em seu julgamento em Jerusalém (a que Hannah Arendt assistiu como repórter da New Yorker), afirmou que Hitler podia estar errado, mas o fato de que a “boa sociedade” o apoiara por tanto tempo prova que sua voz merecia respeito. É terrível, mas é o mínimo que podemos fazer: perceber que uma máquina opera sobre os ombros do torturador, e que os sorrisos límpidos da sociedade são o perfeito combustível dessa máquina. A consciência, em suma, não é uma instância isolada do mundo, como gostamos de imaginar: a mão que desce o porrete traz em si a força de muitas outras mãos, protegidas do trabalho sujo exatamente por essa peça excusa que o julgamento expõe. Hannah Arendt jamais pretendeu inocentar Eichmann; ela quis estender a responsabilidade, lembrando que o mal não é atributo apenas do seu agente imediato. Eichmann é uma pessoa comum. Este é o ponto, e isso a preocupa.
No caldo de tristeza que têm sido os últimos dias, com a recordação da dor da ditadura no Brasil, o caso Riocentro [para os mais jovens: um sargento e um capitão do exército levavam explosivos para detonar num show na Barra da Tijuca em 1981, mas por ironia do destino a bomba explodiu no colo do sargento, matando-o] voltou à baila. Li em O Globo que o agente do DOI Guilherme Pereira do Rosário, de 35 anos, que levava a bomba, tivera um dia normal: saíra de casa de madrugada, deixara o filho no colégio, e telefonara à mulher para garantir que a carne do churrasco do dia seguinte tinha sido comprada, dizendo-lhe ainda que estaria de volta às 9 da noite. Nunca regressou.
Num dos momentos em que disse não se arrepender do que fez, Malhães declarou: “Quando vejo uma pessoa reclamar que um ente querido morreu, pergunto: se tivesse ficado ao lado da esposa e dos filhos, isso teria acontecido?”
Eichmann, Malhães, Guilherme Pereira do Rosário, todos eles são pessoas comuns. Mas cometeram o erro de se tornar agentes daquilo que a boa sociedade cala e oculta de si mesma. Em sua reportagem, Hannah Arendt se diz alarmada com a rapidez com que Eichmann foi executado no dia 31 de maio de 1962, enforcado, seu corpo cremado, e as cinzas jogadas no Mediterrâneo, fora das águas israelenses.
Longe das vistas. Assim dói menos.
 
 

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Pedro Meira Monteiro