Pedro Meira Monteiro

Dilma e os inconfidentes

 

 

 

Anteontem, Kenneth Maxwell e Bruno Carvalho falaram em Princeton do recém-lançado O livro de Tiradentes, fruto de um trabalho coletivo de vários anos, coordenado por Mawxell e que tem Bruno como um de seus co-autores*. Pelo que se viu e escutou, trata-se de uma espécie de biografia de um livro fragmentado. O núcleo do “livro”, que de fato foi referência para Tiradentes, é formado por um conjunto de rascunhos das constituições de alguns dos estados americanos que se declararam independentes, e que formariam os Estados Unidos da América. No entanto, tais esboços circularam numa tradução francesa, e foi na língua de Racine que eles entraram na mecânica dos desejos e fantasias dos inconfidentes mineiros.
O quadro do fim do século XVIII, antes ainda que a revolução em Santo Domingo ateasse fogo à imaginação temerosa de escravistas e políticos por toda a América, é em si riquíssimo: o rescaldo ainda poderoso da mentalidade aristocrática confrontava-se aos ventos do experimento republicano norte-americano, que passava pela França pré-revolucionária e tinha em Tom Payne seu grande arauto, embora a escravidão seguisse matéria de disputa e embaraço em todos os quadrantes ilustrados. Que a falhada conjuração mineira e a Revolução Francesa ocorressem quase ao mesmo tempo, em pontos tão diversos do globo, é prova de que, ao contrário do que supunha o narrador de Machado de Assis em “O alienista”, a distância entre Paris e Itaguaí não era tanta…
Foi impressionante verificar o que a universidade americana pode produzir de melhor em estudos luso-brasileiros. Moderado por Jeremy Adelman, o debate envolveu o sempre lúcido Stanley J. Stein, orientador de Maxwell na década de 1960 e fundador, em Princeton, do seu Programa de Estudos Latino-americanos. Lá estava um arco singular de gerações, de Stein (com 93 anos) aos alunos de graduação e de pós que refletem sobre o mundo luso-brasileiro, passando pelos colegas “hispano-americanos” e espanhóis, até Bruno, que foi orientando de Nicolau Sevcenko em Harvard, e Nicola Cooney, orientanda de Joaquim Francisco-Coelho na mesma universidade. Senti que algo se firmava ali, como num rito em que a comunidade se vê refletida, através das gerações, num momento de pleno vigor.
A força, aliás, deve ter a ver com o momento por que passa o debate historiográfico no Brasil e além dele: de uma “história social”, que vigorava há vinte anos, ao interesse hoje pela história da historiografia, ou por uma história mais conceitual e autorreflexiva, a qual põe de sobreaviso quem tenha, do ofício do historiador, uma noção mais “politizada”, ou propriamente engajada. Esta, aliás, uma das questões que ficaram no ar: o que significa a publicação de O Livro de Tiradentes hoje, no Brasil? Que leitores terá, e como o lerão? Estará Kenneth Maxwell regressando ao debate sobre o fermento de radicalismo e os limites ao experimento republicano já discutidos no clássico A devassa da devassa? E como as investigações de Bruno Carvalho e seus colegas, sobre a tradução e a circulação dos rascunhos de um documento fundacional de uma outra América põem lenha nessa fogueira que, talvez, possa iluminar a experiência contemporânea na sempre alquebrada República brasileira?
De uma forma ou outra, uma leitora pra lá de “oficial” roubou a cena, quando lembrou-se que ela passara o domingo tuitando nervosamente enquanto lia O livro de Tiradentes. Dá o que pensar, e não resisto a trazê-la à página, no instantâneo que me passou Tomás Amorim, entre divertido e entusiasmado:
* Os outros autores são John Huffman, Gabriel de Avilez Rocha (co-organizadores, com Bruno Carvalho), Júnia Furtado e Heloísa Starling.

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Pedro Meira Monteiro