Pedro Meira Monteiro

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May 2013

O que é isso, Caetano? Revolução, culpa e desejo

Passados quase 50 anos do golpe de 1964, uma série de perguntas parece assombrar as consciências de esquerda: há revolução à vista? Agora que a distribuição de renda vem se alterando, e que o “povo” ganha ares de consumidor soberano no Brasil, que fazer das esperanças frustradas pelo golpe? Estaríamos finalmente vivendo o futuro daquele país cujo futuro foi roubado em 1964? Mas o que fazer com um futuro quando ele decepciona? E a quem ele decepciona? Há poucos meses veio à luz um denso ensaio de Roberto Schwarz (“Verdade tropical: um percurso de nosso tempo”, em Martinha versus Lucrécia) cujo alvo são as memórias de Caetano Veloso, publicadas em 1997. A partir dele, talvez seja possível esboçar algumas reações diante daquelas perguntas.

Crime and punishment

Normal.dotm 0 0 1 153 874 Princeton University 7 1 1073 12.0 0 false 18 pt 18 pt 0 0 false false false O que nos separa do crime? Onde, a linha que me separa da morte do Outro?Dostoiévski a figurou da forma talvez mais assustadora: tal linha inexiste. Matar é simples, rápido e, no limite, indolor. O problema é o que vem depois, a culpa que invade o sujeito e secreta suas fúrias e seus temores. Assim se espera. Assim espero.Que o soldado nigeriano que, há dois dias em Baga, atirou de volta ao fogo a criança que tentava fugir das chamas, tenha sentido por um momento – um momento que seja – o peso do ato, e que tenha experimentado aquela sensação que nos toma quando deixamos cair um objeto das mãos, como se ele fosse uma parte do corpo subitamente separada de nós.E que o presidente sinta, quando justifica a alimentação forçada dos prisioneiros em Guantánamo, um estranho gosto, como se fosse sua a goela que a sonda nasogástrica invade, afrontando a greve de fome.Que… que… que… antes da morte se possa figurar o sofrimento, e que dele nos afastemos.É a minha oração de primeiro de maio. Num país que aliás esqueceu o primeiro de maio.

Pedro Meira Monteiro