Pedro Meira Monteiro

Monthly Archives

February 2013

Longe do fim: Utopiensium republica

É engraçado como o fim assusta.Em determinados meios intelectuais, a pecha de “hegeliano”, e a ojeriza por qualquer “filosofia da história”, podem esconder um problema, ou mesmo um sintoma, de um momento na história intelectual em que nos descobrimos impossibilitados de fazer as pazes com o pensamento finalista, como se a crença no fim da história fosse um demônio indesejável, que convém expulsar da mente.Entretanto, a crença no fim da história abriga todo o pensamento utópico clássico. Vale a pena, aliás, prestar atenção à significação e à etimologia da palavra “fim”, que tem a ver, justamente, com a “fronteira”, inclusive com aquilo que é a fronteira do pensamento.Nunca é demais lembrar que, no discurso de Thomas Morus, é um viajante, Rafael Hitlodeu, quem desvela, aos fascinados Morus e Pedro Gil, os segredos da ilha da Utopia. O remate de Morus é a quintessência do pensamento utópico (aqui, na tradução de Luís de Andrade, na célebre coleção Os Pensadores): “Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que disse este homem , aliás incontestavelmente muito sábio e muito hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificuldade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro ver estabelecidas em nossas cidades.” E, em seguida: “Aspiro, mais do que espero”.No original, lê-se: permulta esse in Utopiensium republica, que in nostris ciuitatibus optarim uerius, quam sperarim.Mesmo para aqueles de nós para quem o latim é grego, fica evidente que a “opção” por “ver” (optarim uerius) não nos liga, necessariamente, à crença no apagamento da história.Pode não ser pecado, em suma, olhar para o lado de lá da fronteira. O problema é encontrar as lentes que nos deixem ver o que está lá, se é que algo está lá.