Pedro Meira Monteiro

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July 2011

O murmúrio e a perda: Paisagem com dromedário

O texto abaixo saiu na revista do Memorial da América Latina, e lá está disponível em português e espanhol.Uma linha imaginária nos separa, a nós que flutuamos orgulhosos na ilha Brasil, dos vizinhos hispano-americanos. A ideia de “pular Tordesilhas” e lançar um olhar abrangente sobre a América Latina não é nova, e vem ganhando fôlego ultimamente. Exemplos não faltam.Que se pense no eixo Buenos Aires-São Paulo-Rio, fortalecido em torno da revista Grumo, em que se juntam críticos e escritores como Diana Klinger, Mario Cámara ou Paloma Vidal. Ou então, apontando para o Caribe, penso no canto de Marina de la Riva, onde Cuba e Brasil se enlaçam e dizem, um ao outro, a que vêm e de onde vêm suas tradições musicais.Significativamente, tais cruzamentos provêm sobretudo de emigrados, de gente que se situa num “entre-lugar”, como o chamou Silviano Santiago: nem cá nem lá.Paisagem com dromedário (Companhia das Letras, 2010), da escritora chileno-brasileira Carola Saavedra, surpreende um destes cruzamentos. Há, no romance, um tópos da literatura latino-americana: uma máquina, ligada, conta uma história.Em 22 “gravações”, a narradora entretece sua voz lutuosa aos sons circundantes, numa ilha extrema em que a solidão é posta à prova, e em que a distância intransponível dos entes queridos faz com que qualquer sentido se esvaia. Momento em que a voz tende ao murmúrio, escorrendo como água límpida para passar ao largo de qualquer explicação, lançando perguntas sem sequer arranhar uma resposta. (O tema da separação já dera o tom do romance epistolar Flores azuis, de 2008.)Em certo momento da narrativa, uma provocação é lançada àquele que escuta: quem sabe se, ouvindo os sons a que se sobrepõe a voz gravada, possamos, como numa história de detetive, descobrir o sentido de tudo, mapear o espaço e os desígnios de quem fala? No entanto, a ausência de sentido ressoa, baixo como um ruído branco: “é tão reconfortante saber que, seja como for, tudo fará sentido no final. E não esses ruídos, essa música que a gente não ouve, esse murmúrio silencioso e a constante sensação de que estamos perdendo alguma coisa”.O gravador é a figuração de uma máquina para onde foram transferidos os mistérios de uma paixão cruzada e atormentada. Mas, paradoxalmente, a máquina não revelará nada além da própria perda, sustentando aquilo que está irremediavelmente longe, como na epígrafe que a autora toma à poeta argentina Alejandra Pizarnik: “Se fuga la isla/ Y la muchacha vuelve a escalar el viento”.Não será difícil perceber aí ecos do diálogo de Ricardo Piglia, em sua Cidade ausente (Iluminuras, 1997), com o Museu da novela da Eterna (Cosacnaify, 2011), de Macedonio Fernández.No caso de Piglia, sua ficção está tomada por um problema: a narração como resistência ao apagamento da história. De um lado, a busca paranóica do sentido; de outro, uma história que permanece viva numa máquina, a despeito dos esforços “oficiais” por desligá-la. Em resumo: diante da ameaça do aniquilamento, a voz se sustenta guardada numa máquina que é a própria narrativa.No caso de Carola Saavedra, atenua-se o teor político que é ainda forte em Piglia, cuja ficção se situa no marco da pós-ditadura na América Latina. Aí, aflora uma pergunta: o que acontece quando os “inimigos” não estão mais ativos, ou quando se ocultam?No marco pós-ditatorial, a narrativa é a permanência de histórias não contadas que, formando uma teia coletiva, teimam em soar às margens do discurso oficial, num espaço que é o da literatura mesma, a desdobrar-se em breves utopias. Mas, uma vez que os inimigos se foram, o que será feito da teia coletiva da história? Narrar seguirá sendo uma forma de resistência? Mas resistência a quê? Ao apagamento do sujeito, do indivíduo?Em Piglia, uma comunidade de “desaparecidos” revive na força discreta da narrativa. Mas e quando o desaparecido está só, e é o próprio narrador?Talvez não haja resposta para tal pergunta. Ou talvez Paisagem com dromedário seja uma resposta possível, tão precária e transitória quanto tocante.

O espelho norte-americano e a universidade brasileira

O texto abaixo saiu, com poucas alterações, na Folha de S.Paulo de 1 de julho de 2011, na seção “Tendências/Debates”, com o título “O espelho dos Estados Unidos e a universidade nacional”.Há poucos dias nesta coluna, Cerqueira Leite lançou uma provocação: como a universidade brasileira pode subir no “ranking” de qualidade?Para o físico brasileiro, a resposta aponta para Estados Unidos e Inglaterra. Sua vantagem estaria em que, nas mais qualificadas universidades destes países, (1) o órgão colegiado supremo é formado por membros externos à academia, (2) a escolha de reitores está protegida da força da “corporação interna”, (3) há mecanismos de proteção à “endogenia”, com escolha de professores titulares de fora da própria universidade, e (4) a estabilidade se alcançaria apenas no fim da carreira docente.A sedução dos modelos estrangeiros raramente é acompanhada pelo conhecimento de suas engrenagens. Não há dúvida de que a academia norte-americana é, no geral, mais eficiente que a brasileira. Contudo, o elogio desse ambiente supostamente menos personalizado (protegido do perigo da “endogenia”) resulta, quando se olha para o caso brasileiro, no aviltamento das instâncias internas de decisão, como se fazer política dentro da universidade fosse tarefa espúria, limitada a “grupelhos” de professores improdutivos. A alternativa seria, então, abrir a universidade e romper sua lógica endogâmica.Segundo Cerqueira Leite, as instituições de pesquisa em mira têm, como órgão decisório máximo, um pequeno grupo de “cidadãos prestantes externos à universidade”. Trata-se do “Board of Trustees” (algo como o “conselho” das empresas estatais no Brasil). Porém, os “trustees” (reveladora expressão!) são ex-alunos que se tornaram excelentes em suas profissões, e que não raro fizeram fortuna, literalmente. Esta, a verdadeira lógica endogâmica da universidade nos EUA: o martelo que bate e aprova as monumentais decisões orçamentárias pertence a ex-alunos, o que faz com que toda a máquina funcione para agradar os alunos de hoje, que serão os doadores e os “trustees” de amanhã. Endogenia pura, mediada pelo dinheiro.Mas as decisões que chegam à mesa dos “trustees” são tomadas por um grande colegiado de professores, que em universidades mais aguerridas é chamado de “senado”. Não se faz ciência sem política.Outra ilusão é de que a carreira docente estaria protegida da endogenia. No entanto, a notória mobilidade dos acadêmicos nos EUA não impede o favorecimento de grupos e agendas internas aos vários campos do saber, sendo que a contratação de um colega “senior” se dá a partir de uma decisão interna dos membros “senior” de um departamento, a ser corroborada pelo órgão colegiado através de uma consulta externa a membros do “campo”. Um misto de ingerência “externa” e “interna”, portanto.Já a noção de que nas universidades americanas o docente só alcança estabilidade “no fim da carreira” é simples engano. Como no Brasil, há um período probatório, em geral de seis anos, antes que se ganhe o selo vitalício. A diferença é que o período probatório é para valer, e aí sim há julgamento “externo”, com consulta sigilosa a colegas de outras universidades. Já a justiça desse sistema de promoção é em si um tema espinhoso.Em suma, se os vizinhos ao norte nos oferecem um modelo, convém olhá-lo por dentro. Do contrário, seremos vítimas da ilusão de que nossa histórica ineficiência é o inverso da eficiência que atribuímos a eles. Como se o mundo, ao sul, estivesse de ponta-cabeça.