Pedro Meira Monteiro

Urgência por narrar

O texto seguinte saiu, com poucas alterações, na Folha de S.Paulo, com o título “Novos autores revelam urgência por narrar” (Ilustrada, sábado, 18 de dezembro de 2010, p.E11):

O que têm em comum Do fundo do poço se vê a lua (Joca Reiners Terron), Paisagem com dromedário (Carola Saavedra), O único final feliz para uma história de amor é um acidente (João Paulo Cuenca) e Os anões (Veronica Stigger)?

A tentação de responder com uma linha evolutiva da literatura brasileira, elogiando-lhe a vitalidade contemporânea, é grande, mas inútil. Não que não possamos imaginar parentescos: penso por exemplo em Oswald de Andrade como um avô bastardo de Veronica Stigger, no romance de Carola Saavedra como um primo do relato bandeiriano de Adriana Lisboa, ou então no inescapável gostinho de Rubem Fonseca e João Gilberto Noll em Joca Terron. A rede poderia estender-se ao infinito e no entanto jamais daria conta da novidade que está nos quatro autores.

Com exceção de Os anões, cujos microrrelatos tendendo ao absurdo fazem pensar num Beckett gaúcho que pusesse o leitor a esperar em vão por um sentido qualquer, as demais obras têm em comum narradores que se perdem e se encontram em suas próprias histórias, como se suas vidas dependessem da possibilidade de narrar. Daí nasce a urgência por contar que dá a cada uma destas narrativas seu tom aflito.

Em J.P. Cuenca (O único final feliz), tal aflição se projeta num verdadeiro mangá literário, em que, sob vigilância, o narrador principal vive um sonho breve, logo esmagado pelos desejos invejosos do pai. Antes do esmagamento, que se faz aos poucos, vemos emergir um belo e titubeante veio lírico, como se a doçura perturbadora e úmida dos olhos dos mangás se contrapusesse ao horror de um godzila paterno que arrasa a paisagem e o futuro do filho. É numa Tóquio onírica, a um só tempo estranha e familiar, que se passa a história.

Em Paisagem com dromedário, Carola Saavedra monta uma preciosa cadeia amorosa que, desdobrando-se, revela uma série de fantasmas que inclui a própria narradora, de quem ouvimos apenas a voz gravada, que nos faz perguntar: onde está, ou quem é aquele que conta? A sustentação da voz está condicionada à ação de uma máquina que ao fim descobrimos ligada. Ecos hispano-americanos: não será também o diálogo de Ricardo Piglia com Macedonio Fernández que escutamos nesta paisagem dos extremos, em que descobrimos que a narrativa só pode ser aquilo que o narrador deixou, isto é, aquilo que foi abandonado?

Talvez o compromisso com a lírica seja uma característica renitente da literatura brasileira. Contudo, enquanto o veio lírico se encontra pleno em alguns autores (de João Anzanello Carrascoza a Milton Hatoum), em outros ele não faz mais que entremostrar-se, poderoso em sua discrição. É o caso de Joca Reiners Terron em Do fundo do poço se vê a lua, história meio brasileira meio egípcia em que a experimentação com a voz narrativa atinge um nível muito alto.

É difícil não comover-se, zangar-se e rir com o narrador que vive em sua plenitude o aspecto ficcional da experiência, rasgada pelo dilaceramento do sexo. É possível que, no caso deste livro, presenciemos um entroncamento complexo da história literária no Brasil. Penso por exemplo no momento em que, enamorada pelos punks de fliperama da década de oitenta, Cleo (ou Wilson, ou Liz Taylor) os vê prostituindo-se, numa cena cuja vileza é compensada pelo quadro daqueles seres que somem “dentro dos trólebus silenciosos que desciam a rua Augusta, levando-os de volta aos subúrbios”. Como se a crueldade angulosa de um Rubem Fonseca repentinamente cedesse a um improvável passeio lírico pela metrópole, como acontecia em João Antônio. Mas o reencontro furtivo da lírica em meio à aridez da cidade grande não é também o fio, hoje, de um Luiz Ruffato?

A teia de parentescos continua crescendo, e no entanto estes autores são sempre mais do que podem sugerir estas alusões. Pode-se supor que estejam todos esperando por aquele misterioso e “solitário facho de luz” que se vê na “Caverna”, de Veronica Stigger. Um raio que permita ao sujeito enfim revelar-se, o que no entanto só é possível enquanto existir a ficção.

Comments

  1. Anonymous

    Pedro dear,
    A Ilustrada está precisando ilustrar-se com textos como o seu. Faça o favor de ser mais assíduo! E, obviamente, avise os amigos quando publicar, ok?
    Ainda não li nenhum dos livros que você comentou. A Carola me parece ser bacana. Preciso arrumar tempo.
    Abraços
    Pito.

Pedro Meira Monteiro