Pedro Meira Monteiro

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June 2010

A toa, à toa

Pensa-se à toa e escreve-se à toa. Mas o melhor que se pode pensar e escrever talvez nos venha mesmo à toa. Deveríamos confiar na gigantesca intuição de um Nietzsche, ou de um Adorno, tão diferentes, mas tão fascinados, ambos, pelo desvio, isto é, pelo sentido profundo de estar à toa. Mas também pelo paradoxo de estar alerta, quando se está à toa.A “toa”, a propósito, é um termo náutico, que significa o cabo com que uma embarcação reboca a outra. Estamos à toa, portanto, quando somos rebocados, sem que tenhamos qualquer acesso à direção.O Houaiss completa a história do termo com uma linda acepção nordestina: no São Francisco, “de toa” é que o se diz da navegação sem propulsão, aquela em que a embarcação se deixa levar rio abaixo.As referências poéticas do estar “à toa”, dos barcos loucos e desviados, são tantas que nem dá vontade de começar a lista. Mas, nas ondinhas deixadas por alguns lindos textos inspirados pela morte do Saramago, não consigo esquecer o poder daquela iminência do descolamento, que é também um deslocamento profundo: a Península Ibérica que se separa da “próxima Europa”, ganhando afinal a vida que é a sua.Longa vida aos que se descolam.

Pedro Meira Monteiro