Pedro Meira Monteiro

Monthly Archives

April 2010

À deriva

Para a AndréaO que torna um filme como À deriva uma obra de arte tão tocante? Talvez a distância e a proximidade que marcam o pulso da narrativa e, com ela, os movimentos da câmera.Mas o que é tão distante e ao mesmo tempo tão próximo?Uma interpretação corrente vê no filme de Heitor Dhalia o tema do incesto: o pai mal contém-se diante da filha que se torna mulher etc. No entanto, a obsessão moralizadora – o moralista não prevê a circulação do desejo no seio da família – cega o intérprete, tornando-lhe inacessível o verdadeiro tema de À deriva, que é o desejo, simplesmente. Nada mais nada menos que o desejo: puro, inalienável, ele é o que circula, o que boia do início ao fim do filme.Entendo então porque o filme é aquático, e porque o azul é sua cor forte. Fosse outro o cenário, longe do mar, e o filme se perderia. Ou seria outro filme.Mas há algo ainda na distância e na proximidade, a que talvez valha a pena prestar atenção. O filme se passa nos anos 80. O velho quadro do escritor frustrado diante de uma máquina portátil de escrever é revisitado, e um espectador pode perguntar-se o que seria deste filme se no lugar da máquina houvesse um laptop, ou mesmo se o isolamento da família em Búzios fosse entrecortado por chamadas de celular. Algo então seria rompido. A distância seria rompida.À deriva se sustenta num movimento pulsante, e não sobreviveria sem o afastamento: para nós, vendo-o hoje, trata-se de um quadro distante, como se o fluxo do tempo (marcado, insisto, pelo relativo isolamento que a era digital aboliu, talvez para sempre) se alterasse, como se vivêssemos, afinal, a fábula em toda sua pureza. Once upon a time, era uma vez, il était une fois…O tempo suspenso num passado próximo e distante (um tempo imperfeito, daí a necessária regência do verbo) é o país dos contos: nem lá nem cá, à deriva, sobrevivendo na narrativa, e apenas nela.Arrisco-me a uma definição, que não pode deixar de ser, afinal, uma metáfora: À deriva é um disco tocando numa vitrola, lento, preciso, a agulha deslizando suavemente nos sulcos. E o braço da agulha boia, ondulante, obsedando os olhos.

Pedro Meira Monteiro