Pedro Meira Monteiro

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March 2010

Arrepio e livros

Há um frisson no ar. Ou talvez seja apenas a primavera que toma conta de New Jersey, lembrando que o verão – o gigantesco verão dos acadêmicos – anda por perto.Mas o frisson tem também a ver com a leveza, com a ausência de matéria: fala-se sem parar de um mundo “bookless”, onde os livros já não têm lugar. Um amigo bibliotecário envia e-mails sobre a polêmica em torno dos novos formatos digitais, enquanto outro filosofa sobre o ato de ler.Roubo, num só gesto de “copy & paste”, as palavras de Paul Firbas: “Quien lee para aprender empieza, humildemente, agachando la cabeza. En cambio, la lectura poderosa en formato digital permite que cualquier lector se adueñe de un texto, que entre en él sin someterse al pacto de lectura que éste propone. Ese nuevo lector asalta el texto en busca de su presa: no respeta los caminos ni las estrategias trazadas por la misma estructura del libro, desde su organización conceptual hasta la rígida secuencia material de las páginas.”A imagem é forte: comportar-se diante do livro é submeter-se ou conquistar? Francamente, não sei. Mas ainda me assusta a alegria levíssima dos que jamais vão à biblioteca.No entanto, há os que gostam da matéria. Talvez seja porque a matéria envelhece e, como tudo que envelhece, alteram-se cores, forma e cheiro. (Sobre o cheiro, os que têm faro e gostam de livros saberão do que falo. Imagino um Brás Cubas que lançasse um de seus deliciosos reptos ao leitor: “Leitor amado, ventile de um golpe as narinas com as páginas de um livro, e descubra-lhe, vivíssima, a idade, a procedência e até os bons ou maus tratos que recebeu.”)Machado, aliás, gostava de pensar no caráter fugaz das coisas, dos livros e das pessoas em particular. Porque nunca paro de pensar nele, tenho a sensação de que a matéria é afinal a superfície visível de uma história sempre mais funda, e mais trágica do que imaginamos.Os livros, como objeto e suporte, são plenamente analógicos. As partes se tocam, e as mãos tocam o livro, como se aquele pacto de submissão a que se referia Paul fosse também uma aproximação gentil e cautelosa, humilde diante da grandeza que é o poder oculto na matéria.Mas talvez esta seja uma forma demasiado espiritual para pensar a matéria. Melhor deixá-la, que se entregue ao frisson aéreo que anuncia o verão, e que se evapore de vez. Que descanse, a matéria.

Glauco

Um “anônimo” que eu conheço muito bem adicionou um comentário a um texto deste blog, que por sua vez era um comentário ao filme de Ang Lee, Taking Woodstock.Essa pessoa dizia que, “re-assistindo ao filme (em homenagem ao glauco e aos ozetês) ficou ainda mais claro como foi caro pertencer à contracultura…”Em primeiro lugar, rever o filme de Ang Lee como uma homenagem ao Glauco, morto anteontem, é a coisa mais bonita que se pode imaginar!No entanto, o comentário não me sai da cabeça: “foi caro pertencer à contracultura…”Só podemos pertencer a algo quando somos capazes de sustentar esse “algo”, seja o que for: um lugar, uma pessoa, uma comunidade, ou tudo isso junto. Só que a “sustentação” não é aqui apenas uma metáfora.Não é uma metáfora porque o desejo talvez seja, no fundo, a matéria de toda e qualquer sustentação, mas em especial dessa sustentação, dessa pertença de que o meu conhecido comentarista anônimo falava.Agora entendo onde o comentário me tocou: pertencer é manter tesa a ponte do desejo. Isso é difícil, e é uma delícia que nenhum dinheiro compra. Eis aí a sacada da contracultura.Viva o Glauco.Do Angeli, é claro.PS. Minha querida anônima faz uma homenagem ao Glauco, via os ouvidos de Luiz Tatit. É linda, e está no 1001.