Pedro Meira Monteiro

Taking Woodstock

Inspirado no livro de Elliot Tiber, Taking Woodstock é uma joia. Uma joia, porque recusa a abordagem direta e crua do concerto mítico. No filme de Ang Lee, tudo se passa à volta de Woodstock. Não ouvimos os sons de Woodstock senão como remota música de fundo, e não vemos o palco senão como um centro distante do universo, fascinante e intangível.

Em Taking Woodstock, a idealização da contracultura é compensada pela perspectiva, que é porventura a questão central do filme. O que vemos é o desenrolar de uma pequena novela familiar, tendo ao centro um garoto que ensaia sair de casa, e que vive o drama de afinal morar ao lado da fazenda onde se deu o concerto. Woodstock não é para ele o “outro lado”, e a saída do círculo familiar – com a necessária e dolorosa negação dos pais – está sempre perto e distante. O filme todo se desenrola em torno à metáfora da perspectiva, como se uma lente buscasse o foco capaz de revelar o que, no fundo, é a felicidade do sujeito. Daí a “Happy Ave” que está sempre logo ali, indicando o impalpável do caminho que leva para fora de casa.

Todos os sinais da contracultura – liberação sexual, políticas do sujeito, drogas e resistência à guerra – estão presentes, sem que no entanto componham o foco do filme, que recai antes de tudo sobre a separação da família, naquele instante mágico em que ela se desfaz para que alguém possa enfim juntar suas poucas coisas e partir.

É um filme inteligente, e o final é curioso: um empresário-hippie, montado em seu cavalo fogoso, em meio à lama e aos restos da festa, é portador de um charme inegável, já completamente estilizado, como que a anunciar o momento em que a contracultura se tornaria um produto rentável e irresistível na Broadway, com o musical Hair. O empresário-hippie é ainda o visionário arrivista que está tramando um concerto dos Rolling Stones na costa oeste. Para qualquer bom conhecedor da história da contracultura, vai aí cifrado o final trágico do sonho daquela década: em dezembro de 1969, em Altamont, os Stones contratariam os Hells Angels para garantir a segurança de seu show. Quatro pessoas morreram e inúmeras ficaram feridas, enquanto a gang “protegia” o palco com suas motocicletas.

Woodstock em Porto Alegre, vale a leitura:http://www.woodstockpresentefuturo.com.br/

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Pedro Meira Monteiro