Pedro Meira Monteiro

Lição de férias

Ontem recebi um e-mail da Marina, minha sobrinha de treze anos, com o seguinte pedido:
PQ, eu tava aqui na casa da vovó lia fazendo lição de férias de português e não sabia como fazer. então, eu pedi ajuda pra ela e ela me ajudou, mas disse que voce poderia saber melhor. a lição é sobre linguagem conotativa, e aí vai ela:
Aí vai ela… O que vinha eram três perguntas sobre a “linguagem conotativa” no “Brejo da Cruz”, de Chico Buarque. A Marina e seus colegas tinham que descobrir por que, no poema, as crianças “comiam luz”, por que “ficam azuis”, e o que acontece quando a palavra “luz” aparece logo antes da palavra “alucinados”. Depois, havia ainda uma quarta pergunta, sobre as relações entre a canção do Chico e “O bicho”, poema que Bandeira compôs em 1947, e que aparece em Belo belo. Foi daí que eu respondi à Má:
Acho que o segredo do exercício (bonito o poema/canção do Chico Buarque, não?) está na ideia mesma de “conotação”, que tem muito a ver com a poesia e com a possibilidade de, digamos assim, “desviar” o sentido natural daquilo que as palavras significam, ou despertam em nós. É como se a conotação fosse o próprio desvio, a possibilidade de que uma coisa signifique outra… Mas sem esse desvio não haveria poesia, não é? Ou pelo menos, sem esse desvio a linguagem seria uma coisa muito chata, plana, sem nenhuma surpresa.
Por exemplo: a ideia de “eletrizados”, na canção do Chico (“Eletrizados/ Cruzam os céus do Brasil/ Na rodoviária/ Assumem formas mil”). Os meninos estão eletrizados não porque botaram o dedo na tomada, mas porque o Chico Buarque quer criar a ideia, ou a imagem, de que eles são como anjos tortos, como seres feitos de luz, mais ou menos como nas imagens de santos e anjos na pintura medieval e depois renascentista. Veja por exemplo como está o Cristo neste quadro famoso do Tintoretto, um pintor veneziano do século XVI:
O quadro se chama, justamente, “A última ceia”, e este é o momento em que, na fábula bíblica, Jesus está prestes a “virar luz”, a “desencarnar”… (Também os apóstolos têm a sua luzinha saindo de si mesmos, viu?)
O Chico está jogando com essa ideia de “desencarnar” (“Alucinados/ Meninos ficando azuis/ E desencarnando/ Lá no Brejo da Cruz”), que ao mesmo tempo lembra o fato de que os meninos são anjinhos (tortos, é claro…) e que são magrinhos (de fome). Em termos de “conotação”, pode-se dizer que o verbo desencarnar funciona poeticamente porque conota esse lado angelical, luminoso, das crianças. (Ainda segundo o relato bíblico, o caminho das criancinhas é o Cristo, lembra? Jesus dizia “Vinde a mim as criancinhas” etc.)
Enfim, por aí acho que você pode responder às perguntas: comer luz é não ter o que comer, mas é também aproximar-se da experiência mística; “alucinado” tem a mesma raiz da palavra “luz”, e tem a ver com essa ideia de que a luz os leva longe, o que por sua vez faz pensar em outra “viagem” pelos céus, que é a viagem das drogas (no caso das crianças do Brejo da Cruz, dá pra imaginar que muitos cheiram cola, além de “vender fumo”); azuis eles ficam de fome, provavelmente, ou de doentes. Mas não dá pra saber exatamente, porque tudo é muito conotativo…
Como aliás no poema do Bandeira, que se você reparar tem muito a ver com a canção do Chico, não apenas porque chama a atenção para o escândalo dos seres humanos que passam fome, mas porque, diante do horror dessa fome, o poeta (seja o Chico, seja o Manuel) se volta para… a luz. É o sentido do vocativo “meu Deus”, no último verso do poema do Bandeira (“O bicho, meu Deus, era um homem”), não é? Já quanto ao poema do Chico, acho que ele fala mesmo da experiência cristã do sofrimento e da redenção, afinal o título do brejo não deixa margem a dúvidas: Brejo da Cruz.
Um último detalhe engraçado, que provavelmente andava na cabeça do Chico quando ele compôs a canção: há um livro de um outro poeta maravilhoso, o Carlos Drummond de Andrade, que se chama “O brejo das almas”… Pois então, a conotação não é divertida? Um coisa puxa a outra, a outra, a outra… e de repente tudo fica mais interessante.
Espero que isso ajude.
Ciao, take care.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Pedro Meira Monteiro