Pedro Meira Monteiro

A voz e o além

A voz e o além

É difícil compreender Lars von Triers. Entretanto, em meio ao estranho que cerca sua figura, há sempre um problema a fasciná-lo: o homem desassistido da graça.

Breaking the waves (1996) conta a história de uma jovem (Bess, magnificamente interpretada por Emily Watson) que vive numa vilazinha escocesa e se casa com Jan (Stellan Skarsgard), que trabalha numa plataforma marinha de petróleo. Bess conversa constantemente com Deus, pedindo que encurte os longos períodos de ausência de Jan. Diante do silêncio que o céu reserva a suas súplicas, Bess responde pelo próprio Deus, com uma engraçada voz grossa que expressa, à perfeição, o ódio um pouco misógino dos velhos da cidadezinha. Diante do silêncio do além, nada resta senão dar-lhe voz.

Lars von Trier consegue, poventura como ninguém mais, expressar a angústia da distância entre o homem e Deus – angústia que é o próprio infinito que nos separa d’Ele, fundando uma geografia interior cujas raízes remotas apontam para santo Agostinho, para reaparecer depois, em grande estilo, em Pascal, Simone Weil, e – por que não somá-lo à lista dos desesperados? – em Machado de Assis.

A brutalidade do mundo em que não se revela a graça divina (a graça só se consuma depois da morte, quando é tarde demais) é a mesma brutalidade que se encontraria depois no magnífico Dogville, de 2003. Em Dogville – uma cidadezinha abstrata que os críticos mais apressados identificam a uma típica cidade americana, tomando um tanto literalmente o anti-americanismo de Von Trier – surge, certo dia, a bela Grace (Nicole Kidman). Sua presença é insuportável para a vila. Mas a crueldade que ela desperta ao redor de si não é um auto-de-fé qualquer. É que de fato os homens não podem viver com a graça. Reencontrá-la seria como viver o fim dos tempos, numa espécie de retorno maldito de Sodoma e Gomorra. É impressionante que, em Dogville, as referências sejam ao mesmo tempo tão claras e tão cifradas. (Destaque para a presença emocionante de

A voz e o além

É difícil compreender Lars von Triers. Entretanto, em meio ao estranho que cerca sua figura, há sempre um problema a fasciná-lo: o homem desassistido da graça.

Breaking the waves (1996) conta a história de uma jovem (Bess, magnificamente interpretada por Emily Watson) que vive numa vilazinha escocesa e se casa com Jan (Stellan Skarsgard), que trabalha numa plataforma marinha de petróleo. Bess conversa constantemente com Deus, pedindo que encurte os longos períodos de ausência de Jan. Diante do silêncio que o céu reserva a suas súplicas, Bess responde pelo próprio Deus, com uma engraçada voz grossa que expressa, à perfeição, o ódio um pouco misógino dos velhos da cidadezinha. Diante do silêncio do além, nada resta senão dar-lhe voz.

Lars von Trier consegue, poventura como ninguém mais, expressar a angústia da distância entre o homem e Deus – angústia que é o próprio infinito que nos separa d’Ele, fundando uma geografia interior cujas raízes remotas apontam para santo Agostinho, para reaparecer depois, em grande estilo, em Pascal, Simone Weil, e – por que não somá-lo à lista dos desesperados? – em Machado de Assis.

A brutalidade do mundo em que não se revela a graça divina (a graça só se consuma depois da morte, quando é tarde demais) é a mesma brutalidade que se encontraria depois no magnífico Dogville, de 2003. Em Dogville – uma cidadezinha abstrata que os críticos mais apressados identificam a uma típica cidade americana, tomando um tanto literalmente o anti-americanismo de Von Trier – surge, certo dia, a bela Grace (Nicole Kidman). Sua presença é insuportável para a vila. Mas a crueldade que ela desperta ao redor de si não é um auto-de-fé qualquer. É que de fato os homens não podem viver com a graça. Reencontrá-la seria como viver o fim dos tempos, numa espécie de retorno maldito de Sodoma e Gomorra. É impressionante que, em Dogville, as referências sejam ao mesmo tempo tão claras e tão cifradas. (Destaque para a presença emocionante de Lauren Bacall no elenco.) O tema estivera já, de outra forma embora, em Dancer in the Dark, o tocante musical com Björk e Catherine Deneuve, lançado em 2000.

A fascinação de Lars von Trier pelos referentes norte-americanos, aliás, só comprova que o seu desprezo declarado pela terra de Ben Franklin mal esconde a fascinação pelos temas que ela desperta.

 

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