Pedro Meira Monteiro

As folhas ao vento, a vida caduca e fugaz: um tópos desde Homero

Michel Orcel, anotando os Canti de Leopardi, diz que a bela “Imitazione”, de 1828, é apenas a tradução de um medíocre poema de Arnault, “La Feuille”:
Lungi dal propio ramo,
Povera foglia frale,
Dove vai tu? Dal faggio
Là dov’io nacqui, mi divise il vento.
[…]
O verbo “dividere”, em italiano, lembra que “separar-se” (a folha solta, afinal, e toda sua poesia milenar, dependem deste ato primeiro que é a divisão) é também ofertar ao mundo algo mais. E no entanto, ofertar ao mundo algo que nele não estava antes é já um ato doloroso.
Orcel traduz “mi divise il vento” por “le vent m’a déchirée”, algo que em português soaria como “o vento me arrancou/desentranhou/despregou”.
É interessante que a poética da fragilidade, que a folha solta desperta, faz esquecer a violência desse ato primeiro, que a tradução ao francês, inadvertidamente ou não, traz de volta ao poema.

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Pedro Meira Monteiro