Pedro Meira Monteiro

Nosso grão mais fino

Há algum tempo terminei Nosso grão mais fino, de José Luiz Passos.
A verdade é que, vinte ou trinta páginas lidas, minha fascinação se mesclava ainda a um pequeno incômodo, uns sustos e uma desconfiança: a de que um tique rosiano pegava o livro e torcia a prosa, aqui e ali, projetando-a em direção a uns neologismos de fundo metafísico. E o incômodo foi cedendo, cedendo… até que me soltei um pouco, e por fim relaxei – talvez impulsionado por tanta potência que se guarda na vacuidade daquele Vicente que um pouco persegue a mulher proibida, um pouco se persegue a si mesmo (em Zelino), um pouco vive do vazio do salto simbólico desde o zepelim, que se não me engano instaura uma história incontável dentro da história contada. E toda boa história são duas, como bem sabemos. Uma contada, outra descontada.
Pois é, cedi, como leitor. E gozei um monte a leitura. Mas, como professor de literatura (meu sonho mais infantil é que um dia eu possa ler sem lembrar que ensino literatura…), eu me perguntava sobre as filiações, as linhagens, essas coisas todas em que nos apoiamos para entender a literatura, ou talvez simplesmente para lidar com o nosso temor de não entendê-la. E então supus que ali estivesse um escritor cujo romance era a tese em forma de ficção de seu bonito livro sobre Machado (Machado de Assis: o romance com pessoas). A tese: o sujeito moral, o desdobramento do eu, a memória como reparação, um narrador que não pode amar sem metáforas, tudo enfim me punha a suspeitar, num primeiríssimo e equivocado momento, que ali ia um crítico a exercitar uma tese de um bom romance. (O que em geral resulta, claro está, num mau romance.)
Ledo engano. Ledo. Ledo mesmo, porque feliz fiquei, passadas as primeiras páginas, ao perceber que eu lia um romance, mas um romance grande, sensível, que reatava sim com uma miríade de referências da “nossa” literatura, mas jamais o fazia mediante uma tese pensada e arquitetada. Ao contrário.
Depois do tormento da dúvida em relação ao que eu lia, veio a bonança da leitura prazerosa, e da certeza gostosa de estar diante de uma obra que virá, virá e virá. Acho que se José Luiz Passos tivesse inventado um pseudônimo, ninguém o imaginaria “professor” de literatura. Tanto melhor que os dois coincidam nele: o professor e o escritor.
Sobre a poesia: que acerto incrível oferecer a orelha a Fernando Paixão. O texto dele é uma incisão precisa, e uma provocação graciosa: quem ousa, firme e teimoso, reinventar a prosa do engenho, revisitar o açúcar que se supunha acabado? Mas, sobretudo, quem é o despudorado a escrever uma prosa poética, a inventar uma voz lírica quase como se a escrita ultra-realista das últimas décadas não tivesse existido? Um bom leitor saberá, no entanto, ou talvez sentirá, que a literatura seca das últimas décadas também é a matéria de José Luiz Passos, embora ele vá encharcando sem medo ou medida o terreno que os outros secaram, e que uns poucos (uns poucos que devem formar, suspeito, a estante imaginária do escritor de Nosso grão mais fino) cultivaram ou cultivam ainda. Porque os há, ainda: os que sustentam a lírica depois da sociedade, depois da seca, e depois do fim.
Que o trabalho de José Luiz Passos tem a ver com o “fim”, não há de passar batido. Eu ficava me perguntando, lá no fundo, sentindo que algo em mim havia sido movido, ou removido: o que esse sujeito falhado está me dizendo? Que é, ou quem somos Vicente? Há também algo de uma masculinidade forte nele, algo meio… Vá lá, falo uma bobagem: há algo de “pós-casmurro” em Vicente. Porque não há dúvida de que ele não entende Ana, e que Ana vai escapar-lhe. Há uma pequena brutalidade, um sem-jeito crônico em Vicente, que só ajuda a reforçar a superioridade de Ana. “Superioridade” que é sempre a invenção do sujeito masculino amedrontado, e que me faz pensar que não há duas vozes no relato, a despeito das evidências e das marcas textuais. É só Vicente que fala. Talvez Zelino, se falasse, pudesse dizer algo sobre Ana que carregasse mesmo a voz de Ana. Mas a voz de Ana é inacessível. Ana ainda é Capitu.
Mas a ruína… Ah, a ruína é ainda outra história, dando tão claro o fio da narrativa, e tão claro deixando solto o seu desenho. Não falo apenas do final trágico, do mergulho do velho escritor numa cidade submersa, assombrado sempre pela figura dessa espécie de mucama atardada que o aguarda na superfície. Falo de todo o livro, das metáforas químicas da composição e da descomposição, da gigantesca maquinaria abandonada, do gosto pela organização da matéria que é a forma de controle de Vicente. Organização da matéria que talvez, no fundo, oculte o descontrole do sujeito (histórico) diante das ruínas da família e do engenho, e ainda o descontrole do sujeito (o narrador) diante das ruínas do texto, e do desfazimento também de uma química do amor. Vicente, ao fim, nas belas passagens eróticas do livro, consegue umas explosões de laboratório – nada além disso – da sua Corama. Parafraseando o crítico José Luiz Passos, em seu estudo sobre Machado: Vicente não dispensa a experiência. No entanto, ele não vai além dela.
Senti a imagem do laboratório muito forte, mas ao mesmo tempo oculta, no livro. A química experimental é para mim a grande “metáfora” de Vicente: recompor o que já se descompôs, ou que talvez nunca sequer tenha se composto. Recompor em vão. Talvez disso falasse Ana Corama, quando dizia que queria amar sem metáforas. O amor não resiste à recomposição.

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Pedro Meira Monteiro