Pedro Meira Monteiro

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August 2009

Lição de férias

Ontem recebi um e-mail da Marina, minha sobrinha de treze anos, com o seguinte pedido:

“PQ, eu tava aqui na casa da vovó lia fazendo lição de férias de português e não sabia como fazer. então, eu pedi ajuda pra ela e ela me ajudou, mas disse que voce poderia saber melhor. a lição é sobre linguagem conotativa, e aí vai ela:”

Aí vai ela… O que vinha eram três perguntas sobre a “linguagem conotativa” no “Brejo da Cruz”, de Chico Buarque.

Despair and desolation

Despair and desolation. Maybe those are the feelings triggered by Francis Bacon’s paintings. The curator of the Bacon exhibit at the Metropolitan Museum in New York seems obsessed by the idea that the bodies that Bacon painted expressed something like “men without God” – one could read that statement all over the crowded galleries at the museum. We all know that Bacon’s art has to do with the lack of redemption, and the absence of any relief: in the end, we’re nothing but those horrible bodies.

A voz e o além

A voz e o além

É difícil compreender Lars von Triers. Entretanto, em meio ao estranho que cerca sua figura, há sempre um problema a fasciná-lo: o homem desassistido da graça.

Breaking the waves (1996) conta a história de uma jovem (Bess, magnificamente interpretada por Emily Watson) que vive numa vilazinha escocesa e se casa com Jan (Stellan Skarsgard), que trabalha numa plataforma marinha de petróleo. Bess conversa constantemente com Deus, pedindo que encurte os longos períodos de ausência de Jan.

Central Park

Meus olhos

Na rugosidade imensa da pedra

Encontram o veio que os leva longe.

Súbito um buraco os aflige: demoram a deixá-lo.

Um recorte mais agudo, e a vertigem da falésia;

Tornam assustados buscando a lisura que deve haver.

Um novo sulco e a surpresa – minúcias de matéria, exoesqueleto, o ser abandonado,

Um caramujo.

Sobem ainda instados pela leveza enganadora do aclive,

Buscando o topo mergulham agudos em força.

A rugosidade, agora miúda, deixa passar um fio de brisa.

O hálito árido lembra as rugas, e lembro que sou pedra.

As folhas ao vento, a vida caduca e fugaz: um tópos desde Homero

Michel Orcel, anotando os Canti de Leopardi, diz que a bela “Imitazione”, de 1828, é apenas a tradução de um medíocre poema de Arnault, “La Feuille”:

Lungi dal propio ramo,
Povera foglia frale,
Dove vai tu? Dal faggio
Là dov’io nacqui, mi divise il vento.

O verbo “dividere”, em italiano, lembra que “separar-se” (a folha solta, afinal, e toda sua poesia milenar, dependem deste ato primeiro que é a divisão) é também ofertar ao mundo algo mais.

Salve a Lapa, dane-se o supermercado

A vantagem de ler coisas diversas ao mesmo tempo é grande. Desconfio que o leitor se veja instado a imaginar relações onde não haveria nada em comum, não fosse o momento fortuito que o levou a abrir dois livros diferentes e lê-los em paralelo.
De um lado, penso no magnífico romance de Don DeLillo, White Noise, de 1985; de outro, nos contos tocantes de João Antônio. Mas que diabos haveria de comum entre eles?
Nada, em princípio.

Nosso grão mais fino

Há algum tempo terminei Nosso grão mais fino, de José Luiz Passos.
A verdade é que, vinte ou trinta páginas lidas, minha fascinação se mesclava ainda a um pequeno incômodo, uns sustos e uma desconfiança: a de que um tique rosiano pegava o livro e torcia a prosa, aqui e ali, projetando-a em direção a uns neologismos de fundo metafísico. E o incômodo foi cedendo, cedendo…

Sino peregrino

(Para a Andréa)

Que som será?
É um sino que bate e me desperta.

Suas badaladas de apelo não ecoam,
Escoam até mim, líquido brônzeo,
Inequívoco em seu chamado.

É um sino peregrino que bate.
Sinto-o a forçar o espaço,
Rasgando-o com alguma mensagem funda,
Chamando.

Chamando, clamando, ordenando (o pobre!),
Como se o convento ainda existisse,
Como se os séculos não passaram,
Como se eu não fosse estrangeiro, mudo eu mesmo,
Como se o campanário fosse ainda o mais alto ponto da cidade,
Como se o povo ainda acudisse ao clamor,
Como se ainda o assombrasse o divino

Manhattan

Ontem assisti a Manhattan, de 1979. “One of my favorite Woodies”, disse um amigo americano.

É curioso como um artista do porte de Woody Allen torna-se uma referência tão natural para a cidade. Talvez Manhattan não fosse nunca Manhattan sem Woody Allen. Manhattan, a propósito, é mais uma dessas homenagens ao cinema que fazem da sua obra algo tão, digamos, metacinematográfico. Mesmo os amadores podemos sentir que Manhattan é uma cascata de citações, um devaneio por meio de filmes que não vimos mas que conhecemos.

Borges sugeria que jamais se lê um clássico pela primeira vez.